quinta-feira, 6 de março de 2008

Uma língua «esquisita»

O homem dos jornais surpreendeu-me. Classificou de «vício» este velho hábito de os ler. A conversa ligeira vinha de trás (lamentara eu que tanta da nossa gente ande a arredar-se da informação e que, por outro lado, esta se afunde cada vez mais no poço do pensamento único e da verdade feita), e derivou para o jornalismo tabloide infestante, o sensacionalismo barato, o verbo de encher. Mas o homem não entendia como uma boa informação é indispensável ao cidadão e ao sistema democrático. Defendeu-se com um argumento coxo: vendia os jornais nacionais e não os lia por estar todo o tempo a atender pessoas sem capacidade para tratar de uma formalidade das mais simples. E contou uns casos demonstrativos.
Será esta a gente do país profundo. Camada espessa que não lê jornais, não entende o melhor da informação porque não a relaciona por não ter memória ou não ter educação para equacionar os factos. Ou que devora página por página, linha por linha, um jornal desportivo, como todas as manhãs faz o vizinho habitual da minha mesa do café. Camada amorfa do diz-que-disse, que trabalha e se rala tratando da vidinha, de olho vigilante na vizinhança, que discute os eternos futebóis, escandalozitos e telenovelas, mas que ignora a situação real do país ou da sua cidade, as últimas mudanças havidas ou a haver, e que não responde se lhe perguntam o que é ser cidadão porque isso será falar uma língua esquisita. É este o país das vetustas e esquecidas promessas de Abril, que o povo arrebanhado, com o seu peso eleitoral, condena ao desgoverno e às tropelias de políticos de meia tijela. Como estranhar que a emigração se faça de novo em caudal?
Uma certa esquerda engravatada e bem pensante diverte-se nestes dias a pôr em circulação na Internet um «Power Point» a demonstrar que é o próprio povo o culpado do atraso do país, não os políticos que o povo elege. Omite porém dois factos capitais: os políticos tornaram-se indispensáveis ao povo sem ninguém lhes dar tal direito; são os políticos que governam o país com leis, recursos e decisões estratégicas, objectivos - logo, o país real que querem e lhes convém é exactamente este.


Apenas eu notarei o pormenor? Cada período de Natal e Ano Novo vejo em multiplicação as caixinhas com ranhura aberta a pedir moedas em cima dos balcões e bem à vista do freguês. Generaliza-se, portanto, esta muda pedinchice que parece dirigida aos clientes mais certos de cada loja. Todavia, há poucos anos eram ainda as lojas que brindavam no período festivo os seus melhores clientes. E agora são estes convidados a festejar o pessoal onde eram brindados?!
O segundo milénio traz fartura de mudanças (quase nunca para melhor) e uma delas será, provavelmente, a introdução subliminar, nas mentalidades correntes, de um estatuto de consumidores moldados pela ideologia do mercado. Deixaram de ser «utentes», «usuários», etc., ao serem promovidos a «clientes». O mercado, para existir também a nível simbólico, faz-se pagar para mais se legitimar.

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