sábado, 22 de março de 2008

A variação e o tema

Paulo Quintela tem razão. Rilke, por ele traduzido (e creio que também editado em 1955), antecipou Proust e a sua «busca do tempo perdido». Sem a torrencialidade romanesca proustiana (Mário Sacramento fechou-se em casa uns quantos dias para beber da torrente), bem merece uma revisita ao seu único romance, Os Cadernos, aparecido em 1910. Relendo-o, achamo-nos a pensar nos artifícios marotos que fazem e desfazem as famas e as modas literárias, notando que Proust continua presente nos circuitos da leitura (franceses, europeus) e das citações obrigatórias, enquanto Rilke, o grande inovador, se afunda no limbo.
São assim as sentenças arbitrárias de quem decide na matéria, historiadores da literatura, sociólogos dos consumos literários, críticos e comentadores, editores e leitores levezinhos como praganas ao vento… Por tudo isso e o mais que fica omisso, nós, leitores, temos de permanecer atentos. Atentos e sintonizados com os autores e as obras de ontem que valem a pena e que servem hoje para trancarmos as portas ao que nos invade – os verbos de encher. Desconfiando mais e mais das gloriazinhas que estalam, estrondosas e efémeras, todas as semanas, todos os dias, para deslumbrar deslumbrados… Precisamos de resistir firmemente às enxurradas, precisamos de não perder o pé do terreno firme. Atentos e apegados aos «velhos» livros sempre novos para retomarmos o encanto imorredoiro das autênticas maravilhas. Onde pulse, sincero e veemente, um coração humano na busca de voo libertador.
Entretanto, faz-se lembrar o dito atribuído exactamente a Proust e que tão glosado passou a ser: Rilke é o tema, ele a variação… [Ilustração: retrato de Rainer Maria Rilke, de autor desconhecido]


O estudo da assinatura de um indivíduo e da respectiva evolução através dos anos resulta deveras interessante ainda que se dispensem as especiosidades da abordagem grafológica. Há casos em que se alternam os nomes próprios, sobrenomes e apelidos, conforme as ocasiões. Também a grafia muda de uma ocasião para outra, de modo que se enraizou o costume de nos pedirem a assinatura «como está no bilhete de identidade».
Algumas pessoas assinam desenhando um gatafunho quase ilegível, como se quisessem manter por ali a cara irreconhecível ou como ministro que despacha de cruz; outras vão alterando o caligrama como quem busca no ar a forma ideal e não a encontra.
Lembro-me de, com dezoito anos, ter pensado pela primeira vez: «que assinatura vou ter?» Na verdade, nessa altura já a tinha no B. I. e em dois cartórios notariais. Mas, espontaneamente, resolvi mudar - outra teria que ser a minha definitiva. A primeira extinguiu-se depressa… e ainda hoje me pergunto o que, naquela idade, modelou o meu gosto para assinar assim, inclusive com risca por baixo. Francamente, não sei de onde me veio a ideia.
Não sei mesmo! Porque a perrice da risca ficou para me arreliar.

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