terça-feira, 11 de março de 2008

Zeca: a letra e a música

Corridos vinte anos sobre a morte de Zeca Afonso, eclodiram pelo país numerosas homenagens que o evocam como expoente da música popular portuguesa. Jornais, rádios e televisões multiplicaram declarações que o deram como o mais consensual dos autores-cantores e, note-se, tão consensual que até quem não o estima deveras, consabidamente por divergência ideológica, andou por aí a aplaudi-lo.
Pois é, a música soa, atinge o cérebro e enleia num afago as circunvoluções da massa cinzenta. Este poder encantatório das melodias foi por mim recordado num texto que publiquei no meu jornal quando Zeca deu concerto no Porto (texto retirado da «arte d’escrita»), onde eu observava que a música une. Dá-me gosto supor que amansa as feras e vejo agora a ideia confirmada pelas vozes plurais que soam na efeméride dos vinte anos. Mas Zeca discordou então de mim e mandou dizer. Penalizado, não me arrependi daquele texto, nem sequer de ter ido ao seu concerto em horário pós-laboral e pagando bilhete, esquecendo as entradas por convite que companheiros do jornal utilizaram e lhes foram oferecidas de mão beijada.
Quem escreve e se dá é que se trama (não menos de quem entoa a melodia)…


E. A. fez questão de no-lo dar a saber: perdeu uma noite de sono hesitando na colocação de uma vírgula num poema em fase de publicação. Um seu leitor lembra-me agora aquele desvelo para justificar a admiração pelo poeta martirizado pela sua arte. Certo, não é preciso ser poeta laureado para saber quanto custa parir um verso luzente como o sol, mesmo que todos os laureados sonhem com o esplendor ou que nem todos caprichem na minudência da vírgula.
Mas E. A. não tem apenas quem lhe manifesta admiração. Dissipados os cânticos e os incensos gastos no seu passamento, descobre-se que muito cansa o narciso por tanto se querer amado.
Lembram-se?, diz-nos um outro. Evoca o tempo em que o poeta, tendo realizado já a sua obra maior, se queixava. Aprendia a ser árvore no seu cantinho, saía do casulo para o café onde se constituía um círculo beato, «El País» destacava-o em belos artigos, viajava até os Estados Unidos com fotógrafo e… ao longe luzia-lhe a miragem de uma candidatura ao Nobel, pois, por exclusão de partes, seria ele o maior poeta ibérico!
Foi então, ouve-se murmurar, que se iniciou aquela gloriosa ascensão aos céus onde se bebe ambrósia entre os deuses. Recebeu, em vez do Nobel, um prédio por doação municipal. Conquistara por fim o direito de se deslumbrar consigo mesmo e de outro tanto exigir aos seus próximos.
O que haveria de dizer este poeta da frase-programa de outro poeta, Rilke: «Não peças a ninguém que fale de ti, nem mesmo com desprezo»?
Pois, continua o outro, quando E. A. ainda era inspector, carregava a fundo nas firmas que sabia pertença de certos poetas, dele consabidamente rivais, buscando não a colocação ideal de uma vírgula, sim a coima castigadora. Nestes termos se desenha a traço leve uma personalidade bifronte.

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