segunda-feira, 14 de abril de 2008

Activo-contemplativo e vice-versa

Na parede defronte desta mesa em que continuo a ler e a escrever houve em tempos um quadro de grandes dimensões. O amigo P. L. apareceu-me de visita e lavrou parecer: eu era um contemplativo! Discordei mas não o demovi perante a evidência.
O quadro exibia uma foto a cores muito ampliada. Mostrava um jardim com lago, uma ilhota no meio, árvores e arbustos, flores e relvas sulcadas por trilhos ermos, tudo a respirar numa serenidade madura onde poderia sentir-se o piar de pássaros canoras, algum voo de asas deslizantes, ecos perdidos na lonjura para lá do folhedo sussurrante e das verduras.
Era isto a prova da minha índole contemplativa aos olhos (aliás sempre benévolos) do meu cordial visitante. Anunciei-lhe que o quadro era ali provisório e que, por mim, não me achava mais contemplativo do que activo, ou vice-versa. O amigo P. L. tinha formado opinião.
O episódio vem-me à lembrança (deixando-me em dúvidas: estará P. L., agora a repartir-se por três continentes, de Coimbra para África ou Brasil e hoje a descer o pé algures na América?) porque me deparo em página de Hermann Hesse com trecho que me suspende. Cito:
«O meu escopo básico é este: a unidade do homem, além e acima das suas contradições. Não nego, é claro, a possibilidade de certos esquemas como o da “vida activa” e da “vida contemplativa”. Nem que possa ser útil discriminarem-se os homens de acordo com esse esquema. Existem os activos e os contemplativos, mas acima de tudo está a unidade do ser humano. Para mim só vive realmente e, na melhor das hipóteses, só é modelo aquele que encerre em si mesmo esses dois polos contrários. Nada tenho contra o que trabalha e produz sem cessar. Não sou também contra o eremita sempre absorto nas suas preces e meditações. Mas não acho nenhum deles interessante ou exemplar. O homem que procuro e almejo é o disposto tanto à vida participante quanto à solidão, tanto à acção quanto ao mergulho interior. E se, nos meus escritos, segundo parece, dou prioridade à vida contemplativa sobre a activa, faço-o provavelmente por ver o nosso mundo e o nosso tempo povoados por pessoas activistas, operosas, agitadas, mas incapazes de meditar.»
Neste ponto se encontram Hermann Hesse e Claude Julien, embora este, nosso contemporâneo, preconize, como um dia referi, «a eficácia do recolhimento no mundo dos nossos dias». Tem razão, acho eu. O mundo já não é o dos anos ’40, é este, do novo milénio. O que mudou? Enquanto vou relendo com todo o proveito autores admiráveis, isto é, fugindo de verborreias e entulhos do negócio editorial corrente, chegam-me miúdas queixas de quem compra best-sellers e fica desiludido. Explico: não compraram uma «obra», um livro real, compraram uma «imagem» mediática, um nome com força televisiva.
Termino com Hesse: «O povo não aprecia originais: prefere tudo em segunda mão. Só gostamos do novo depois que foi já digerido e alterado, reduzido e modificado pelo uso.»

Sem comentários: