quarta-feira, 9 de abril de 2008

AJHLP roída por dentro

Dedico esta página a umas notas evocativas da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Também foi conhecida como Casa dos Jornalistas no tempo em que os homens que redigiam os jornais portuenses não tinham profissão regulada nem caixa de previdência. A Associação foi tudo isso, sendo ainda um polo importantíssimo de irradiação cultural.
Foi criada para honra e memória de António Rodrigues Sampaio no trigésimo dia do seu falecimento, a 13 de Outubro de 1882, proclamando-o desde então «insigne jornalista, benemérito da Pátria e da liberdade». Os Estatutos da Associação ficaram aprovados por alvará de 1 de Maio de 1897 e a sua utilidade pública foi declarada por decreto a 19 de Janeiro de 1927. Mais tarde, já na vigência do regime de Salazar, o Governo Civil do distrito aprovou uns Estatutos reformados a 11 de Novembro de 1948.
Nesta data, a associação de cultura possuía o prédio-sede e, entre os seus objectivos, afirmava «a obrigação moral do auxílio na doença ou falta de trabalho [pelo sistema mutualista], e torná-la efectiva pelos recursos pecuniários da Associação» junto dos profissionais da imprensa ou das letras. Dispunha de uma vasta e valiosa biblioteca e de cantina, promovia conferências e outros eventos culturais de relevo no país e publicava uma revista mensal de cultura. Obtinha receitas das rendas de uma fila de lojas instaladas no rés-do-chão (esquina das ruas do Bonjardim e Rodrigues Sampaio), das quotizações dos sócios e de dádivas diversas.
O valor material do seu património cresceu com a doação de uma moradia em Paços de Ferreira, para descanso ou trabalho de jornalistas e escritores, e com a posse de um parque de campismo na Madalena, Gaia. Era, sem dúvida, património de valor bastante elevado, a condizer com o prestígio da sua acção social e cultural. Corporizava o esforço de sucessivas gerações de homens dos jornais e das letras que sacrificadamente tinham vindo a derramar-se em generosidade para dar vida e esplendor à Associação. Porém, no fim dos anos ’70, entrou-lhe o bicho através de umas obras de ampliação da sede - e foi assim.
O centenário da morte de Rodrigues Sampaio, em 1982, não o tirou da sombra, as obras ficaram a meio, foi-se a biblioteca levada pela ventania junto com outro recheio, a moradia dissolveu-se como floco de neve, o parque de campismo também se sumiu e as lojas do rés-do-chão foram sendo encerradas (resta uma) e as rendas extintas. Mas as obras nunca mais avançaram por alegada falta de dinheiro, que era pedido em vão a uma e outra entidade, embora nas contas relativas a 1999 se aponte um conjunto de disponibilidades cujo valor líquido ascendia a 26.197 contos (então ainda reinava o escudo).
Porém, o mais curioso é que tudo isto decorreu até hoje na mais clamorosa indiferença do meio jornalístico e literário portuense, imperturbável perante a lenta agonia e perda irremediável de uma instituição que tanto e tão prolongadamente honrou a cidade e o país. Apenas uma voz intercede, mas quem a ouve? O que mais irá acontecer à AJHLP?

2 comentários:

Anónimo disse...

Seria interessante saber o que aconteceu ao acervo d AJHLP. Talvez J.V.M., entre duas garfadas e um trago, saiba dizer alguma coisa...

Anónimo disse...

Surpresa! Ontem, dia 9, acedi por acaso a www.johnneild.pt/notícias/detalhes, site de mediadora creio que portuense. Lá vi uma grande foto da sede da AJHLP e um pequeno texto que cito no essencial: a John Neild & Associados foi «contratada pela AJHLP para coordenar os esforços de muitas entidades que estão a dar um forte apoio à recuperação do edifício sede, com particular destaque para a Câmara Municipal do Porto e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte, além da Apor e outras entidades públicas.»
Grande novidade!Fica em registo e... esperamos para ver o que acontece...
Arsénio Mota