sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aposto na sinceridade

O episódio ontem narrado traz-me outro à memória. Um dia, há muitos anos, C. L., em visita a minha casa acompanhado por A. G. M., insistiu comigo para que mudasse a posição de uma planta em vaso, na sala, em relação à entrada de luz natural. Argumento: rodando o vaso, a planta receberia luz em toda a volta. Discordei, contrapondo: isso «enganaria» a planta, já habituada àquela posição. Acrescia o seguinte: a sala recebia luz abundante, não se justificariam tais mudanças.
Evidentemente, seria fácil concordar com o visitante e, logo que partisse, recolocar o vaso na posição normal. Mas isso seria hipócrita, um pouco cobarde e desonesto. Achei preferível apostar na sinceridade. Sempre. Pode trazer-nos alguns problemazinhos, nunca arrependimento.
Já minha mãe sentenciava «mais vale perder um amigo que uma boa razão» para afirmar que devemos decidir sempre pela íntima convicção do que é justo ou razoável.
Enfim, fiquei tido como «teimoso» logo ali, sumariamente. Porém, a sorrir-me para dentro, a pensar com os meus botões.
Estas miúdas coisas dos nossos quotidianos não têm importância nenhuma. Mas as imagens das pessoas concretas que temos e usamos constroem-se com essas bagatelas sem importância nenhuma – tão sem importância que nem valem a sério um comentário.


Fui verificar: comecei a tomar notas para «E foi assim» (ver o texto inicial deste blogue) na manhã de 19 de Janeiro de 2006. Passado ano e meio vejo que Zita Seabra, editora e deputada do PSD, publica um livro intitulado precisamente Foi Assim para recordar aspectos da sua trajectória política (iniciada no PCP). Fico a pensar que se um dia viesse a publicar estas crónicas com o título de E Foi Assim… haveria alguém de acusar-me de plagiar Zita, ignorando que não tenho quaisquer contactos com ela e que o meu título é, de qualquer modo, bastante anterior.
Seja como for, verificam-se de facto coincidências por vezes embaraçosas e algumas até são, mais do que embaraçosas, perturbantes. Pois não aconteceu que a crónica do A. A. B., lida na revista «Autores», decalcava totalmente e à evidência as ideias e as reflexões que eu fizera semanas antes em crónica saída no «Jornal de Notícias»? O tema: sabemos pouco cada um, todos saberemos tudo… Naquele tempo sentávamo-nos ambos muitas vezes lado a lado nas reuniões da direcção da S. P. A. à qual pertencíamos. Estive para lhe referir o caso mas calei-me, percebendo que iria magoá-lo e complicar uma relação fraterna. Ainda hoje me pergunto o que terá acontecido, o que lhe terá sugerido o tema e guiado a mão?
Que os escritores se inspiram uns nos outros, é verdade assente. E os artistas?! Aprendemos realmente com todos os trabalhos alheios que conhecemos, a originalidade plena é inalcançável. Resta portanto decidir onde se declara cada influência recebida e começa cada plágio. Exemplo: teria Eça de Queirós bebido de Machado de Assis ou aconteceu a inversa? E não se confessou o grande escritor brasileiro como plagiário?

3 comentários:

Rosi Gouvea disse...

Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.

Fernando Pessoa

Estou sempre por aqui... Admirando, aprendendo e me surpreendendo!

Encantada!!

Doces beijos

Anónimo disse...

Doces beijos que, aparentemente, vêm do Brasil. De uma visitante que se diz encantada. Tenho a ideia (ver Pessoa acima) de que esta visitante, tão atenta e sensível, me encantaria também -- se a conhecesse. De qualquer modo, já agora, oxalá continue a vir e a mandar doces em beijos!
Ars
P.S. - O sistema continua caprichoso, obriga-me a fechar este Comentário como «anónimo». Paciência.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio
Se "o homem é produto do seu meio", que culpa pode haver se as "minhas" ideias, coincidem com as de outros?! Com outras ideologias, com outras filosofias, com outras politicas e transversalmente?...
O meu filtro de ideias retém o que há de melhor a meu ver e rejeita o que também a meu ver é mau, podemos falar em plágios se somos justos?

Bom fim-de-semana e
Um abraço amigo Arsénio
Carlos Rebola