terça-feira, 22 de abril de 2008

Belezas de alma feita

Registo mais um desaire no livro das páginas em branco que abro para cada novo conhecimento. Pura perda! O fulano, A. G., aproveitou o mais que pôde das conversas que com ele tive: livrou-se a tempo da toleima de criar uma editora própria para lançar os seus livros, orientou-se para a editora que lhe recomendei, beneficiou de recensões que escrevi quando publicou novas obras, etc. Ele mesmo o disse: aproveitou de mim o máximo. Dele só aproveitei, no fim, a partida.
De início envolveu-me em frases de elogios tão gordos que, perante os excessos de exageração tamanha, lhe pedi insistentemente para abolir de mim tal linguagem. Como quereria fazer-se acreditar falando-me daquela maneira? Enfim, pouco a pouco, moderou-se, como se lhe custasse travar a língua e adaptar a sua expressão normal ao meu requisito. Mas teimou em brindar outras pessoas na minha presença com gordos elogios.
Tratando das aparências, anunciou uma reciprocidade. Ia realizar uma abordagem apreciativa que distinguiria ao que parece uma obra literária minha. Lembrou constantemente o projecto ao longo de meses enquanto eu, agradecendo, manifestava educada reticência. E foi sendo introduzido por mim em associação do género, aceitou convites para refeições,por sinal bem recebidos porque ele passava (dizia) semanas sem sair de casa onde era sozinho e pouco dormia… Económico até no telefone ou no uísque intragável para que as visitas bebessem pouco. E soube que prometia há cinco anos levar um livro oferecido a amigo seu vizinho...
Pois aquela sumidade de alto gabarito académico explicou-me o que fizera: o texto essencial que projectava «para mim» resolvera usá-lo (como veste de Pai Natal) numa apresentação de livro em Braga de alguém «amigo» e que esse texto iria ser encaminhado para publicação na revista literária à qual eu, para o contentar, lhe dissera que ia propô-lo. Fez muito bem, respondi-lhe.
Aquele texto mirífico servir-lhe-á decerto para outras ocasiões, será uma espécie de nómina de circulação académica universal, e com ele A. G. poderá cruzar os anos restantes da vida sem escrever mais nada.


Á. M. partilha comigo as iniciais do nome e mais nada. Não o conhecia ainda, nem de vista, mas o seu primeiro contacto dispensou-me de mais partilha. Aconteceu quando publiquei no jornal depoimentos de alguns autores nacionais num mini-inquérito sobre a situação da chamada literatura infanto-juvenil. Ofendido por se ver excluído, sem vergonha nem réstia de educação, mandou-me carta (escrita à máquina, fotocopiada) a clamar contra a injustiça e a expressar tanta torpeza de carácter que foi remédio santo. Penso que a beleza daquela alma paira no triângulo da sua letra, mas ainda não fui lá ver.
A. M. não é muito pior de aturar que, por exemplo, outro A. M., ou G. M. T. São uns impertigados que por onde passam deixam histórias para contar. Quem os convida critica mas acode a convidá-los.

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