segunda-feira, 7 de abril de 2008

«Boa» literatura para crianças!

Telefonou-me R. T. para anunciar a publicação de uma breve resenha que fez, por ocasião do Natal, a alguns livros para crianças, entre os quais um meu. Faz crítica regular num suplemento literário, por isso explicou que não era esse o caso: no que escrevera aludia meramente à história de cada livro. Preveniu: enfim, nada de crítica, pois que mais haveria a dizer?!
Nada mais há a dizer para além da história, acha o amigo R. T. e eu reconheci naquele ponto o pensamento geral que apesar de tudo prevalece.
Os contos «para crianças» continuam a ser encarados e avaliados como obras menores, da mesma altura miúda dos seus potenciais destinatários. Logo, o que sobre eles sobressai esgota-se no resumo da história narrada. «Pois que mais há a dizer?!» São umas fantasias inconsequentes, umas peripécias mais ou menos engraçadas, coisinhas para distrair, divertir a infância, sem qualquer sumo capaz de merecer a atenção e análise de um adulto e, para mais, leitor calejado…
Preconceitos lamentáveis porque rebaixam as obras literárias destinadas às crianças para o armário da subliteratura. Sabemos todos que não são poucas as obras em circulação que tal restrição merecem, mas… a rasoira leva também de roldão o que reais méritos tenha para ficar e permanecer, a brilhar como pedras brancas.
Nunca me cansarei de repetir: não infantilizem mais uma autêntica literatura para crianças! Para todos os efeitos (e são muitos, e são importantes!), a literatura para crianças tem que «ser boa» para pais e filhos, tem que saber «falar» a todos os leitores e não apenas a crescidos ou a miúdos. Porque existe apenas uma literatura, ainda que distribuída por diversos níveis de qualidade e género.
Uma autêntica literatura para crianças tem que começar por ser «de adultos» para, se atingir nível meritório, poder chegar em boas condições aos pequenos leitores. É possível que os encarregados de educação andem a fechar os olhos e a lavar as mãos neste assunto. Daí a confusão de um professor do ensino básico: quer «dar» às suas turmas um livro meu e pergunta-me que livro lhe aconselho. Entendo: ele evita ler a «coisinha», tem mais que fazer, e eu aqui de longe até conheço os seus alunos…
Acresce um pormenor importante. O Conto, enquanto género literário, enraíza-se na mais profunda tradição da literatura oral e escrita. Moldando ficções de tamanho convenientemente pequeno, convida à inclusão estética de elementos maravilhosos e poéticos que sempre hão-de cativar em qualquer idade os leitores-ouvintes do falar (etimologicamente, fabular).
Mas como impedir essa não-infantilização quando os próprios adultos em massa, enquanto consumidores literários, se deixam infantilizar?! O que por aí reina são fantasias, historietas banais até mais não, e tudo muito divertido, adocicado e convenientemente pré-mastigado ou mesmo pré-digerido.

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