segunda-feira, 21 de abril de 2008

A brincar se aprende

Envolvido em perplexidade fico, uma e outra vez, ao deter-me em vocábulos de etimologia tão nebulosa e desafiadora quanto os de brinco, brincar, brincador ou brincadeira. Não vem para aqui uma abordagem linguística de modo a explanar minimamente o assunto, tão surpreendente quanto inesperado e singular. Basta prevenir que «brinquedo» é termo que parece remontar somente ao século XVIII. Ora! Então esses objectos destinados às crianças podem ser assim tão recentes? Não arranjaram sempre as novas gerações algo com que jogar?
Surpresa grande mas natural. Sentiu-a o prezado amigo arq. Fernando Lanhas, há anos, quando andou empolgado com a criação do Museu do Brinquedo no Porto. Não se descobria constância do termo em Português para além de Setecentos!
O Dicionário Etimológico de João Pedro Machado vincula o termo a «brinco», que na nossa língua materna tem significado idêntico ao castelhano: acção ou efeito de brincar – folgar, saltar, ou jóia da orelha, etc. Mas no castelhano significa ainda o gesto de içar e descer repetidas vezes uma criança nos braços, portanto fazendo-a «saltar no ar». Num auto de Gil Vicente e no Poema de Camões encontramos o vocábulo, atestando que era conhecido no século XVI. Os «brinquedos» e as «brincadeiras», aparentemente, vieram depois…
Quanto à origem de «brinco», reina a discrepância do costume. Provirá do germânico? Ou de outra fonte?


Na figura seca e um tanto mirrada, I. L. acumulou de alguma forma três nacionalidades: era alemã, era portuguesa (pelo casamento, que lhe deu o apelido) e era judia. Circunstância algo singular. A certa altura, admitiu que poderia estabelecer uma «ponte» entre as literaturas portuguesa e alemã, pretensão que não passou de esboço.
Um dia, anunciou-se que um escritor alemão fora distinguido com o Nobel de Literatura e alguns jornalistas contactaram-na para saber se ela o conheceria e como o achava. Embaraçada, I. L. telefonou-me de urgência para a redacção, a perguntar-me o que saberia eu sobre tal escritor, o que saberia o meu jornal. Respondi-lhe que sabíamos o que sabia toda a comunicação social: apanhada de surpresa, punha a circular a notícia descarnada, «no osso». Mas ela, pessoa de trato áspero, teimou, quase exigiu pormenores da vida e obra em foco. Evidentemente, não percebia que estava a pedir-me uma espécie de curto-circuito: eu, jornalista «iluminador», esclareceria através dela os outros jornalistas! Coube-me então apelar para o recurso retórico: respondesse I. L. como é de estilo nestes casos: o premiado era desconhecido mas ainda bem que o Nobel o laureava, ia ter leitores, etc. Reagiu prontamente, de brios feridos: isso sabia ela muito bem dizer!
Pois saberia. Mas avaliaria assim tão bem, perante mim, a sua exigência desmedida? A sua impertinência?!

5 comentários:

Bernardim R. disse...

O triste é toda a gente saber quem foi Ilse Losa e ninguém saber quem é, efectivamente, A.M. ...

Anónimo disse...

Mas, caro visitante, se tristeza houver, não será mais a do próprio A.M...

Anónimo disse...

Sugiro a Berdardim (pseudónimo?)a leitura da citação de Rilke, no fim da crónica do dia 17,
«Dignidade pela educação». E faço votos para que acredite no que lê.
Na verdade, ser «conhecido» não me importa nada, até me resulta incómodo. Lembro: não conhece todas a gente tanta gente que desconsidera ou até despreza? O que de facto por vezes anoto ou lamento é ser pouco lido, quando se vê por aí tanto leitor de frivolidades devoradas como pitéus reais. No fundo, porém, quero ser apenas testemunha do meu meio e do meu tempo. Não me interessa identificar A ou B, e sim peripécias vividas, tipos, comportamentos. Ajustes de contas, não, nem pensar!
Arsénio Mota

P.S.-O sistema obriga-me de novo a editar este Comentário como anónimo, paciência.

Bernardim R. disse...

Sim, caro A.M., mas só quem não o conhecer acredita nessas intenções. O ressabiamento que perpassa este blogue confirma as impressões de sempre, e é evidente que as iniciais identificam toda a gente. Já agora, recomendo-lhe maior empenho na revisão dos textos: pelas calinadas que por cá vejo, imagino-o a dedicar-se à jardinagem, podando as roseiras com moto-serra.

Claro que Bernardim R. é pseudónimo: "Menina e moça me levaram da casa de meu pai para longes terras...".

Anónimo disse...

Triste sorte: não são melhores do que eu os críticos que me aparecem. E que, como se vê, se sentem incomodados apenas porque existo e me pronuncio. Mas agradeço a «Bernardim Ribeiro», não pela Menina e Moça, sim por:

1-Me dar em diagnóstico, sem consulta, como «ressabiado» (na sua ideia,sê-lo-ei só porque não me vendo na berlinda, todo impante, estou portanto «em baixo», i. e, ressabiado, pois ele não vai além disto -- como poderia admitir que não me interessa ir na berlinda?);

2-Pela defesa da língua, contra as minhas pretensas «calinadas» (continuo aprendiz, por favor, onde dá lições de boa escrita, ó mestre de Comentários?!);

3-Pelo seu exemplo cívico de grande nível e coragem(ataca um manso e de cara tapada).
E ponto final, temos todos mais que fazer.
Arsénio Mota