sexta-feira, 18 de abril de 2008

A cara exposta

Primeiro por instinto, depois por opção consciente, fugi da popularidade que tantos outros perseguem. Quanto mais uma pessoa for conhecida, menos liberdade lhe resta. Eis o que explica o incómodo que sinto ao ver-me fixado na rua por qualquer pessoa desconhecida (a procurar talvez na memória a identificação desta cara).
Curioso, sempre admiti mas nunca desejei plasmar a efígie nos meus livros. Acatei os requisitos do grafismo de cada colecção atendendo, por mera cortesia, os pedidos das editoras que me publicavam as obras. Mas o retratismo perseguiu-me… para me contrariar?
Uma tarde deparei-me na redacção do jornal com a minha cara numa enorme fotografia a acompanhar uma apreciação literária a livro recente (cada página do jornal era então composta em maqueta de papel). Reagi, achando excessivo, e a página foi recomposta. Provoquei, contudo, um pequeno escândalo.
Não houvera ainda jornalista ou autor literário a queixar-se por ver a sua imagem em grande plano. Queixas, sim, havia, mas da falta de imagem. Ora eu não pretendia «favores» na redacção e muito menos com o rabo de fora a rabiar. Imaginei como iria ser visto aquele meu retrato no dia seguinte, impresso no centro da página, e até imaginei que não fora por «simpatia» que alguém o pusera ali, ampliado. Camaradagem tão solícita não traria água no bico?


Agradou-me o que o neurocientista António Damásio disse em entrevista (Ana Gerschenfeld, «Público», 22-03-20007). Confirmando a ética de David Hume, que tinha por base as emoções, explica como os humanos rejeitam as formas extremas de calculismo utilitário em ligação com a produção de emoções sociais. Afirma: «Penso que esta forma mista de juízo moral, que alia a razão à emoção, é a manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução (tanto biológica como cultural). Os juízos mais simples não exigem esta combinação, sendo possível lidar com eles ou somente com reacções emocionais.» Deste modo, uma «disfunção cerebral», podendo determinar comportamentos impiedosos, pode também existir sem que haja uma «lesão cerebral» clara. Acrescenta: «A melhor maneira de descrever estas personagens despóticas é dizer que se trata de psicopatas narcisistas, que tentam alcançar altas recompensas através da sua brutalidade.»
Preferiria que tratasse dos sentimentos, para os enaltecer, em vez de emoções, porque aqueles são raros e preciosos e estas, creio eu, são experimentadas de alguma maneira por toda a gente, déspotas incluídos. Mas aproveito para sublinhar aquela dita «manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução» que até animais complexos, como os chimpanzés, de certo modo compartilham quando acatam regras morais simples: «por exemplo, ajudam os outros, quando estão em apuros, o que constitui um comportamento de compaixão».
Damásio, enfim, estabeleceu um princípio ético de alcance fundamental. Nele se revê, em corpo inteiro, a ideia de uma religião natural defendida por Hume (que certos autores ligam ao agnosticismo).

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