quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dois miúdos tomam a palavra

A apreciação de obras literárias «para crianças», pelas características especiais do género, não deveria ser feita, como é, apenas por adultos. As crianças também deveriam ter opinião na matéria, mas aí se levantam as dificuldades que, sendo óbvias, são grandes. Por seu lado, os apreciadores adultos podem dispor de aptidões pessoais para o efeito, mas isso, pelo que se vê, acontece raramente e no melhor dos casos. O ideal, em suma, seria termos um crítico literário ou comentador que fosse adulto sem deixar de ser «criança» e modelarmente apreciador da chamada literatura infanto-juvenil contemplada como área da Literatura, ou seja, com não menor exigência e rigor.
Evidentemente, os pequenos leitores apreciam de facto as obras que lêem (conforme lhes agradem muito, pouco ou nada), só que o fazem na recepção das obras, portanto do lado privado, já sem visibilidade pública. Interessante, então, seria perceber, se tal fosse possível, que comentários mereceria uma dada obra a algumas crianças… e que esses comentários fossem realmente genuínos e espontâneos, isto é, sem «toque» adulto.
Calhou-me em sorte viver a experiência. Foi na sessão de apresentação da ficção Os Segredos do Subterrâneo (na Cooperativa Árvore, Porto: 26-9-1986), que surgia com o Prémio Internacional da Juventude. Acho que foi a primeira vez que dois rapazinhos quiseram aparecer para se pronunciarem sobre o livro que acabavam de ler. Conhecia só um deles, era filho de casal amigo.
Pires Laranjeira fez o comentário da obra e no fim intervieram os dois amiguinhos. Achei magnífico, deveras assinalável. Seria, julgo, novidade estreme e sê-lo-á ainda hoje. Todavia, apenas um jornal mais atento publicou estas linhas: «Dois jovens assistentes que tiveram a oportunidade de ler o original da obra [corrijo: leram o livro já impresso, claro!] disseram, em termos simples, carregados de autenticidade, a impressão que lhes deixara o contacto com a narrativa.»
Os dois pequenos oradores confessaram-me por fim que, embora revezando-se a falar, só tinham conseguido dizer metade do que desejavam e haviam projectado. Exprimiam surpresa, frustração e desânimo. Grande descoberta: «É difícil falar em público!» Enaltecendo-lhes a coragem, eu concordei: «Pois é! Temos que praticar, é como começar a andar em cima das pernas ao sairmos do colo.»


Tarde luminosa, macia.
A hora já tardada apareceu no restaurante F. G. com três acompanhantes também para almoçar. Foi figura de partido, presidente, político no governo, enfim, é pessoa altamente relacionada… Sentaram-se e logo F. G. ficou de telemóvel na mão. Assim comeu, mudando de orelha e usando à vez uma única peça do talher, enquanto os acompanhantes, tristonhos, conversavam entre si. Poderiam dizer que almoçavam com o fulano? Ou o fulano que almoçava com eles?
A comida deixou-me um ressaibo que nem o café dissolveu.

1 comentário:

Carlos disse...

Amigo Arsénio

Parece que neste mundo os “pequenos” não podem ter opinião, muito menos “razão”.
Mas os (pequenos?) é que nos vão julgar amanhã…
E eles sabem do que falam, parece-me a mim, que falam do futuro que lhes preparar-mos…
Somos “rebentos” pequeninos que olhamos a grandiosidade do “cosmos”, talvez ainda tontos, mas temos responsabilidades, porque as assumimos… em consciência…
Um abraço grande