quarta-feira, 16 de abril de 2008

Envolvido em descrença

Ando a descrer mais e mais das disponibilidades de inteligência que pode brindar-me a «multidão ampla» que me rodeia. Percebo que o meu comportamento público e mesmo algum privado deveria apresentar uma imagem construída, conveniente, e que a deveria vender ao consumo alheio, porque tal é de norma neste ambiente social (não apenas o literário). Mas fui-me retraindo à medida que avaliava a cedência implícita à «economia das representações» em expansão imposta pelas leis do mercado que tudo consome, incluídas as imagens enquanto meros artifícios em circulação. Desalinhei-me completamente ao ponto de a «multidão ampla» não ter de mim melhor opinião do que a que dela tenho.
A exemplo de tantos outros autores, deveria agir como «relações públicas» em sedução máxima para atrair os leitores para os meus escritos, mas fixei-me por fim nesta atitude incomplacente de quem, por opção sincera, se recusa a atrair (a enganar) alguém com acenos de maravilhas mil para dar simples bijuterias. Queria, e quero, chamar a atenção para os meus livros à espera dos juízos que possam merecer, juízos livres e competentes, na atitude de quem não se tem por admirável ainda que um qualquer seu escrito possa brilhar ao sol de alguma inteligência disponível. Em suma, queria apagar-me para deixar correr as obras. Mas concluo: se os autores literários vendem mais, actualmente, os seus livros através das imagens que construíram no mercado, não serão tanto os seus livros (lidos) quanto as imagens (cristalizadas) desses autores que fazem negócio. E valerá a pena ler essas imagens? Serão essas imagens «literatura»?
Entretanto, ancorado nos meus escrúpulos, eu tão-pouco consigo chegar pelos meus livros a uma comunicação real suficiente com os leitores. Descontadas as excepções, onde estão esses leitores? Não chegam para realizar a mais funda e secreta ambição de quem os deu à luz.


Que conversa! Mas um debate sobre conhecer o conhecimento vale sempre uma exploração às derradeiras zonas virgens da Amazónia…
Respondi-lhe:
- Todos nós sabemos menos do que julgamos saber. Porque julgamos certo o que é erróneo e portanto não confirmável, seja por deturpação momentânea da memória, seja por inexactidão do que a ignorância confunde ou por qualquer outra obliteração introduzida no assunto.
Por outro lado, também sabemos mais do que antes supúnhamos - descoberta que nos faz soltar a exclamação: «Pois é! Afinal, eu até sabia!»
Alguns dos conhecimentos que guardamos num esconso qualquer mantêm-se pendentes de uma boa ocasião para se revelar. E será impossível avaliar quanto um dado indivíduo que morre sabia e não chegou a revelar-se-lhe.
[2ª ilustração: pintura de Michael Ende, nasc. 1929]

1 comentário:

Carlos Rebola disse...

A cultura sempre vendeu mal. O que vende bem é uma certa imagem de cultura, mas para vender bem tem que haver uma máquina (marketing) por detrás...
Amigo Mota que o seu M grande se mantenha assim grande como é a floresta virgem da Amazónia.
Talvez a nossa (vaidade?), naturalmente humana reclame consagrações em vida física, que estão destinadas a chegar depois da morte (ressurreição? do homem que sabia e ousou dizê-lo) na descoberta pelos vindouros do "afinal ele sabia!..." e estava certo...
Obrigado pela visita ao "Ferroada" e pelos comentários do amigo Arsénio, ponderados mas incisivos e sábios.
Obrigado e um abraço
Carlos Rebola