quinta-feira, 24 de abril de 2008

Fábula do fazedor

Uma superfície lisa é monótona. Cansa e faz nascer desejos de uma elevação libertadora da banal chateza. Desejos de elevação com vista para mais horizonte, mais luz conquistada. Mas de início a ideia manifestou-se nele lentamente, depois, com o tempo, desenvolveu-se. Iria honrar a terra-berço em que nascera e a redondeza.
Um dia notou umas pedras, depois umas pegadas antigas, logo mais pegadas inseridas nuns papéis. Foi juntando tudo, formou um recoleto e nesse lugar fez crescer vagarosamente um monte com os achados que ia acumulando naquela superfície rasa tão aborrecida, onde parecia não existir nada que não fosse também chato.
Engano. Os achados amontoaram-se, constituíram uma pequena colina. Do cimo daquela colina podiam descortinar-se outras colinas espalhadas pela redondeza porque, afinal, via-se agora, a superfície não era tão lisa quanto se supunha.
Ele, o fazedor, pretendeu então chamar as atenções dos vizinhos para a sua descoberta. Pôs-se em cima da elevação que criara e falou. Satisfeito por assim prestar um serviço à sua comunidade, tão útil que, conforme fez questão em demonstrar a quantos subiam ao seu cimo, permitia descobrir a existência de outras colinas em redor a emergir e a ondular na superfície monótona.
A satisfação, porém, foi breve. Apareceu um vizinho a reagir aparentemente porque alguém, que não ele próprio, tinha feito nome com a obra. Ali, mesmo à sua beira e ele… nada?! Foi ao monte recém-construído, retirou os materiais que quis e tratou de erguer o «seu» monte para discutir o outro, mas sem confessar que dele se fornecia e obrando tão à pressa que teve de o encher por dentro com as suas roupas mais velhas e surradas.
Quem lá ia olhava para dentro e via a trouxa da farraparia tapada por fora com as pedras surripiadas ao primeiro monte (os materiais disponíveis eram realmente poucos) mas não estranhava achando normal qualquer trabalho sobre um trabalho já feito. Além disso, as pegadas antigas ficaram ali dispostas numa equação alterada e tão confusa que nunca mais, naquele assunto, alguém pôde saber-lhe o princípio e o fim. E tudo isto mergulhou o fazedor em melancolia.
Em melancolia atravessou várias solidões até que foi de encontro a novos achados. O fazedor amontoou-os com renovada paciência, entusiasmando-se a cada passo porque bastava dar umas voltas levando os olhos curiosos abertos e os achados iam surgindo, eram mesmo inesperados, surpreendentes. Alguém poderia supor que, numa superfície assim tão lisa, tão sonolenta, estava tanto por descobrir?
Quando o seu novo monte já o fazia empinar o pescoço para lhe ver a altura, entendeu que era obra consumada. Tornou a chamar os vizinhos e deu-lhes a conhecer a maravilha dizendo-se ele próprio maravilhado. Só uns poucos, todavia, ousaram trepar àquele outro cimo, decerto por fraqueza de pernas ou por escasso maravilhamento. Houve até quem o criticasse, alegando que arruinava a paisagem.
Perplexo, o fazedor viveu o resto dos seus dias atirando ao ar cada um dos seus achados. Desforrou-se a vê-los cair a esmo até que dos montes restou apenas uma superfície sem memória.
[Ilustração: mural de mestre Alves André (pormenor central), copiado do blogue «Ferroada»]

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Caro amigo Arsénio

Um feliz aniversário, pelo menos que seja, como deseja, que seja.

Amigo obrigado, adorei a forma, literária, como descreve o meu conterrâneo, Mário Romão, o fazedor do "monte" da "elevação" cuja pilha de cestos de verga "arruinava" a paisagem... O anonimato na blogosfera torna-nos conhecedores de pessoas reais mesmo que pareça ficção...
Obrigado Arsénio por frequentar e observar com interesse os meus sítios, neste caso por onde passou o Mestre Alves André...
O amigo descreve aqui a lenda dos “papaluas” sem nunca ter ouvido falar nela.

Um abraço amigo e muitos anos de vida
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Sim, caro amigo, não ouvi falar de «papa-luas»! Aliás, devo confessar isto: a fábula, que o mural de mestre André acabou por ilustrar, não se inspirou nesse seu conterrâneo. Já estava escrita há uns diazinhos, continuava inédita como tudo o que ando a colocar neste blogue. Para mim tem uma certa «moralidade», um certo sentido neste caso apenas pessoal. Se para si teve interesse literário, óptimo, muito obrigado.
Acrescento que faço minhas as suas palavras: um blogue permite-nos conhecer pessoas altamente estimáveis. Mas também já apareceu um espécime... de fugir!
Um grande abraço e os meus agradecimentos.
Ars

Anónimo disse...

"não precisam", claro; além de octogenário pouco dado a computadores, tenho de regrar o consumo de absinto..

Bernardim R.