quinta-feira, 3 de abril de 2008

Foi uma espécie de elogio...

Há uns anos, algumas pessoas conhecidas insistiam em prodigalizar-me uma espécie de elogio: consideraram que não era fácil de enganar. Queriam dizer que eu identificava certos jogos vulgares, não que me investia da infalibilidade do papa. Estou a recordar agora aquelas pessoas e a notar o afastamento em que se instalaram sem explicação plausível (afora a mudança de paradigma).
Acho curioso. O seu contacto, comigo, o tal que «não era fácil de enganar», deixou de ser estimável, recomendável?
Terão agora entrada livre, no círculo das suas relações preferenciais, os fulaninhos fáceis de enganar?!
Enfim, pode um cisco de juízo provocar uma discriminação?
De facto, ocorre uma viragem nos comportamentos sociais, portanto nas atitudes e nos costumes. Abre-se todo o lugar à circulação dos indivíduos formatados pela ordem predominante, ordem tão férrea que vai funcionando como a mais eficaz tirania imposta pela conformação geral. Assim, quem abra o bico para qualquer «dissonância» no ambiente criado, ainda não será o terrorista na sala mas já vai sendo o inoportuno incómodo a evitar convenientemente.
Viragem sem novidade nenhuma, é claro. Mas até a este nível individual podemos sentir como as dramáticas transformações do mundo se documentam aos olhos de quem, postando-se na margem, vê a engrossar e a bramir a corrente que avança para a irracionalidade cretinizante e a submissão palerma.


Porque venho derramando aqui recordações, reflexões, garatujas? A interrogação assalta-me e não sei responder-lhe.
Vergílio Ferreira confessava ter necessidade diária de escrever, pulsão para mim desnaturada. Tenho necessidade, sim, de comunicar, de me sentir para sentir o Outro. De sopesar o meu tempo e o meu mundo. De exprimir um pouco do que penso.
Estar vivo é perceber cada cintilação de mudança que surja à tona, percebendo que permanecemos vivos na medida em que sejamos capazes de aprender algo de novo a cada passo, em cada dia.
Falta-me provavelmente convívio intelectual mais vivo e substancioso, compensações para as faixas envolventes da solidão próprias, até certo ponto, da idade sénior. Num breve relance apenas, quantas perdas eu poderia contar por ausências, lutos, despedidas em acumulação imparável!
Acresce um fenómeno: pelo menos nesta cidade, as redacções que conheci anulam qualquer broto de amizade interpessoal (os jornalistas, antigos companheiros, conhecem-se para se desconhecerem). Por outro lado, vêem-se por aí autores literários metidos nas conchas dos egos intumescidos que trazem às costas, como caracóis, quando se dignam aparecer em público onde deixam a brilhar o seu ranho.

4 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia Arsenio!
Ainda bem que continuas a ter tempo e vontade em partilhar com todos nos as tuas impressoes da vida. E ja agora aproveito para convidar-te a relatar, de vez em quando, impressoes da vida moderna que reflectem aquilo que continua a ser bom nas nossas vidas.
Abracos do amigo de Linda L.

Anónimo disse...

Amigo Al:
Agradeço o teu comentário e respondo-te. As nossas vidas têm, continuam a ter, felizmente, coisas magníficas, coisas boas, gente bonita em tudo (educação, comportamento, filosofia de vida, etc.) Uma dessas coisas boas que me contempla é a tua tão gratificante amizade.
Compreendo-te, amigo: queres que me volte para isso, que me deixe de «pessimismos», não é? Mas repara, meu caro, nós também não podemos deixar de lado esta nossa obrigação de ver o que precisa de conserto e de fazer uma forcinha para endireitar o que esteja torto. Claro, quem viva na Califórnia terá uma percepção algo diferente da realidade actual portuguesa...
Bom dia, Linda Ln! Mando para aí um afectuoso abraço!
Ars

Ferroada disse...

Amigo Arsénio
Compreendo o que sente, porque sinto o mesmo, quando falamos de coisas banais com ar banal do tipo "Éh pá admiro-te porque..."
Mas quando algo começa a ser sério e importante, o tal do "Éh pá..." e não são poucos afastam-se com pezinhos de lã...
E como dizia o outro "frente a frente com o touro, olhamos para trás e nem "rabojador"..." e eram tantos que nos diziam que tínhamos razão e que contasse-mos com eles.
Mas Amigo Arsénio sobraram aquele punhado, os verdadeiros amigos que estão com os outros nas coisas boas mas estão sozinhos connosco nas coisas más são os verdadeiros e verdadeiramente amigos com quem contamos e eles contam connosco. Por norma são poucos mas são os melhores.
Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Inteiramente de acordo, Carlos Rebola! É preciso resistir, mesmo com poucas forças, quando resistir espelha verdadeira humanidade e justa justiça. Então, acho eu, é que a atitude de resistência se faz na verdade em nome e em defesa de tudo o que há de mais bonito e valioso no mundo! E eu tenho esta sorte magnífica de ter excelentes amigos! Um abraço de gratidão para eles, do
Ars