quinta-feira, 10 de abril de 2008

O menor teimoso

Registo a curiosidade. Certo amigo taxou-me de «teimoso» num escrito que aparece no livro saído em 2005 para assinalar os cinquenta anos da minha actividade literária. Pretendeu o amigo, A. G. M., salientar um traço no meu carácter, não estabelecer no caso uma avaliação qualitativa. Mas, para mim, trata-se de uma opinião, de uma «maneira de ver» pessoal, logo de uma parcialidade.
Raciocinando com lógica (vale a pena, sempre!): o «teimoso» carece de outro maior para se revelar, e mostrará sê-lo de facto na medida em que tente sobrepor-se-lhe definitivamente. O confronto entre os dois pode envolver, naturalmente, uma dose variável de sinceridade (franqueza) filtrada pelas regras da convivência cordial, que arreda da realização verbal recíproca o que por vezes fica não dito, nem sequer implícito. Digamos então que o equilíbrio da relação diminui com a «caça ao teimoso» e que deixa de reinar entre os dois uma total harmonia.
Aquele amigo, licenciado em Filosofia, parece não ter atendido a esta dialéctica elementar e acabou por se mostrar um pouco mais «teimoso» do que eu. Ficou a perder. Quis ter razão quando deveria ter tanta tolerância quanto o seu interlocutor, que por sua vez não o acusou de nada. Bem observado, o que disse volta-se contra ele próprio e mostra-o, agarrado à migalhinha, perante a minha habitual aceitação, em boa paz, da diversidade humana.
Na leitura de Hermann Hesse encontro um trecho iluminador: «A obediência é virtude. Toda a questão está em saber a quem obedecer. A obstinação também é obediência. Mas todas as outras virtudes, tão estimadas e decantadas, são obediência a leis feitas pelos homens. Só a obstinação é que não lhes dá importância. O obstinado obedece a outra lei: ao “senso” do que lhe é “próprio”.»
Anoto isto como exercício de pura disciplina do pensamento, colhendo de passagem a última discordância de A. G. M. Porfia ele em juntar hedonismo e epicurismo como termos perfeitamente associáveis, e persiste na sua apesar de lhe demonstrar, de acordo com diversos autores, que as ideias defendidas por Epicuro e outros estoicos da mesma escola nada contêm de hedonista, antes pelo contrário. O prazer que defendiam e procuravam viria da fuga diligente aos males do mundo, única forma possível de serenidade e de paz. Coincide o meu amigo, porém, no ponto que vêm repetindo as tubas propagandísticas da Igreja, desfigurando e desvirtuando intoleravelmente a matriz daquela filosofia. Até chega a argumentar comigo com a suficiência de um estilita (pensante que ia para o topo de uma coluna e troava)…
Suponho que A. G. M., companheiro há mais de trinta anos, exterioriza neste caso mais do que teimosia. Vejo-o empenhado em recobrir com uma ideia «filosófica» a atitude que está a assumir perante a vida e o mundo atribuindo a tal ideia um papel justificador. Quer consumir sem baias, quer desfrutar de todos os prazeres possíveis, ou seja, mergulha no turbilhão das paixões (que ofuscam a clarividência), levado pela ideologia em voga que transforma cada habitante do mercado em predador compulsivo.

Sem comentários: