quarta-feira, 30 de abril de 2008

Os medos da vida

Quero ser cremado. E se posso ter voto post-mortem no assunto, peço e agradeço que as minhas cinzas, depostas em urna, fiquem guardadas no jazigo familiar em Bustos, junto aos restos dos meus pais. Ali, morto, ocuparei tão pouco espaço quão pouco no mundo ocupei, vivo.
O meu querer é simples e sem mistério: serei um sentimental até o fim.
Decidi-o lá longe, no tempo, quando me esquivava aos funerais da praxe social e me apercebia da necessidade de resguardar o âmbito restrito do acto (o familiar e o cordial).
Um dia houve notícia de alterações legais e eu, querendo estar ao corrente, interroguei um familiar, jurista e amigo, sobre o assunto. Respondeu que o interessado teria de fazer declaração notarial, mas que não contasse com ele próprio (nada quer que invoque a morte). Percebi que ignorava a notícia da alteração. Enfim, deu-me a ler a legislação revista e actualizada.
O horror à morte condiciona muitos comportamentos. Certas pessoas (que não aquele meu familiar), chegam a considerar ímpia, ou desalmada, a incineração de cadáveres. Uma delas é a minha irmã. Mesmo agora, quando se expande a carência de terrenos para os cemitérios (que se resolve aqui e ali pela adaptação de prédios a tal fim), e se reconhece que a incineração é bem mais higiénica e aconselhável de variados pontos de vista.
Não há dúvida: nos medos da morte se reflectem os tamanhos pessoais dos medos da vida. E embaraçam-na, tolhem-na.
Por mim, creio que avancei no tempo de olhos abertos para a inevitabilidade da morte, pelo menos desde as torturas sofridas na Pide, em Coimbra. Contava 35 anos. tive de a enfrentar de olhos nos olhos sem susto e sem desvio. A seguir, foram bastantes as ocasiões em que, reflectindo perante certos comportamentos (egoístas, arrogantes, mesquinhos, deslumbrados por óbvias fantasias) de quem me rodeava, eu intuía que esses comportamentos teriam na origem a determiná-los um certo medo da morte – medo irracional, degradante…


À pressão doutrinária da Igreja se deve provavelmente uma boa parte da repugnância que existe perante a ideia do fim. Nesse caso, a religião prende a gente ao mundo, não a prepara para «outra vida». Não a põe a viver preparando a morte, antes a deixa agarrada à existência até à sufocação. Neste pé se poderão entender as encenações por vezes ridículas com que é costume cerimonizar um falecimento: as urnas, as flores, as condolências, os préstitos cerimoniosos, a arquitectura das campas… Não é uma eventual dimensão «pública» alcançada pelo acontecimento - abrangendo uma comunidade inteira ou um breve punhado de familiares e amigos – que determina o desgosto da perda, se acaso não o eleva ao paroxismo mórbido. Tenho para mim que a morte de alguém é momento de inviolável intimidade, momento a viver pelos mais próximos numa esfera privada. [2ª ilustração: porta de capela em Roriz, Santo Tirso; data de 1560]

Sem comentários: