terça-feira, 1 de abril de 2008

«Oscares» antes e agora

Lembram-se da festa que nos foi servida aquando da última atribuição dos «Oscares»? Na véspera, no próprio dia da sessão e no dia seguinte, as televisões, os jornais e as rádios esforçaram-se para nos tornar aquela noite memorável. Eu tenho-a presente, não quero ser ingrato.
A cerimónia da atribuição dos bonecos na Academia de Hollywood é espectáculo a não perder pelos fabricantes e fornecedores do Espectáculo. E é assim ano após ano: trombetas sonorosas irrompem a proclamar ao mundo quem melhor trabalhou na fábrica hollywoodesca. A freguesia arregala os olhos, deslumbra-se com pompas e circunstâncias, make-ups, vestes e lantejoulas espectaculares, vedetismos ansiosos para imensas capas das revistas, mas sem ver novidades em cena.
Os próprios bonecos continuam sem graça ao fim de uns oitenta anos de produção em série. Por algum motivo ganharam o nome que passou a identificá-los. Consta que alguém, ao ver o boneco pela primeira vez nas mãos do responsável pela organização dos prémios, achou nele semelhanças com um seu tio «Oscar». O baptismo ficou, não se arranjou outro.
Apesar de tudo, a noite hollywoodesca faz-se lembrar em mim porque não encontro termo de comparação mais eloquente para ilustrar o fosso cavado entre o agora e o antes. Um antes que recua somente à década de ’80, digamos uns fugazes 25 anos. Quem está agora na maturidade, se acaso tem memória, poderá recordar a indiferença geral que reinava, e não apenas em Portugal, perante as sessões dos «Oscares». Se for jornalista, tanto melhor.
O evento era encarado como expediente de mera propaganda do cinema estado-unidense (mas então havia – ainda resistia - um cinema europeu: francês, italiano, sueco, checoslovaco, polaco…) e, nesses termos, desvalorizado. Hoje dir-se-á que havia um «preconceito». Os jornalistas tendiam a omiti-lo dos seus media, pois reinava uma capacidade de julgamento crítico capaz de escolher em cada cinematografia entre produções comerciais e produções artísticas. Onde isso já vai!
As produções comerciais EE.UU. engoliram o mercado, as televisões nivelaram-se por baixo para agradar à mediocridade do maior número possível, a variedade das expressões e dos estilos ficou cilindrada pela expansão dos grandes estúdios, a míngua de recursos no campo da concepção artística das obras procurou compensação numa pesquisa infindável de efeitos e mais efeitos especiais…
O que a sessão de atribuição dos «Oscares» demonstra ano a ano é esta perda da qualidade geral das obras cinematográficas produzidas por uma indústria formatada para o lucro e consumidas por multidões igualmente formatadas. O que demonstra, em suma, é toda a vastíssima devastação operada no critério e no gosto dos públicos em poucos anos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Subscrevo inteiramente,a sua crítica a propósito da cerimónia dos oscares. A televisão actual, das milhentas novelas,não vale nada. Produção para uma audiência"formatada", termo que emprega na sua crítica e sintetisa o estado a que chegámos...
Rui Almeida

P.S. - Este comentário devia já ter aparecido aqui há dois dias mas o sistema, não se sabe porquê, não funcionou neste período. Vamos a ver agora...