terça-feira, 8 de abril de 2008

Pastor de palavras erradias...

Um livrinho de histórias «para crianças de todas as idades» que publiquei em 1987 mantém-se sob um estranho agoiro. No original e nas provas tipográficas revistas sempre fiz aparecer quatro entrelinhas (i. e., espaços em branco) correspondentes a outras tantas mudanças de plano narrativo. Quando o livrinho saiu, aquelas entrelinhas, importantes e mesmo indispensáveis na coerência e ritmo da estrutura narrativa, haviam-se sumido. O texto, corrido, saltava de um plano para outro, não respirava!
Reclamei, demonstrando-me alheio à deficiência, mas não pude ir mais longe que isto: pedi por escrito a devida correcção em futura reedição, salientando que seria fácil introduzi-la pois não afectaria em nada a paginação já feita. Mas a 2ª edição tardou (sabem porquê?), a minha reclamação amareleceu no papel arquivado, rodopiaram as caras dos responsáveis na editora… e, quando recebi a dita «2ª edição» em 1994, feita sem aviso prévio ao autor, vinha igualzinha à 1ª, digamos tirada a papel químico. E a 3ª, idem, etc. Deverei desistir?
Para já, uma conclusão. Só esta: parece tão difícil inscrever umas linhas em branco naquelas páginas, nos sítios correctos, que o melhor será desistir definitivamente. Porque se instala a economia do menor esforço que facilita as reimpressões, basta meter o material na impressora e transformar uma obrinha literária em vulgar mercadoria.
Explicará isto que se venda tão pouco?


Uma desgraça puxa outra. Certa tarde, na Feira do Livro, folheei uma «novidade» de minha autoria. Fresquinha, acabava de vir da gráfica e a editora estava a lançá-la. Peguei num exemplar e apreciei a edição, folheando-a. De súbito, o alarme: o trecho final de uma história, por sinal extenso, desaparecera!
Todavia, nas últimas provas que revi (com o esforço acrescido de reler mais uma vez, sem tontura nem tortura, o meu escrito), estava tudo bem. Então a vigilância do autor não ia ter fim?!
Pedi imediatamente a retirada da obra. A gráfica arcou com todas as culpas, que por inteiro lhe pertenciam, e reelaborou o livro. Prejuízo grande, sim! Mas houve que pagar desforra: por fim acabou por levar sumiço o parágrafo terminal daquela história em bolandas…
Foi o prémio de consolação dos comilões dos textos alheios!
Outra sorte coube a livro ilustrado por E. Umas poucas linhas de texto que rematavam duas histórias foram trocadas por algum distraído, à última hora, e assim ficaram… e foram ficando.
Quantos leitores atentos detectarão estas anomalias nos livros e avaliarão as canseiras e amarguras que prolongadamente ocasionam aos autores?! Talvez poucos. Mergulhados no estupor de tais falhas ocorrerem em plena utilização de suportes digitais.

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Caro Arsénio
Não desista, eles terão que entender e ouvir as quatro inspirações no seu livro através das suas expirações.
A 4.ª edição terá essa correcção, também o autor deve ser avisado dela com tempo e com respeito.
O amigo tem razão com tantas facilidades tecnológicas e informáticas á disposição ainda acontecem estas coisas… como será com o novo acordo ortográfico?
Como é que o livro não é tratado como uma pura mercadoria, se a nossa próprio língua está a ser tratada da mesma maneira?…

Um abraço
Carlos rebola

Anónimo disse...

(Verifico, agora, que o meu comentário não foi publicado no dia 8):
Há grande falta de respeito pelo Autor e pelos leitores.
O Autor deve exigir do editor a qualidade contratada e impedir a circulação de exemplares com tais defeitos.
Continue a desabafar.
Abraço,
Rui Vaz Pinto

Anónimo disse...

Caro amigo Carlos Rebola:
Para mim, é já tarde para desistir. Mas fui vencido: a cepa torta vai continuar torta e a rir-se da tortura! Não há um raio que a endireite!

Caro Rui Vaz Pinto:
Fala bem, «exigir do editor a qualidade contratada». Era bom, era. Mas sabe, sabemos todos, que vivemos no bendito país da irresponsabilidade, do passa-culpas. E os contratos de edição não contemplam essa «qualidade», daqui a pouco perguntarei o que é que contemplam?! Aliás, noto que são quase invisíveis queixas destas de outros autores, e será porquê? Ex.: na 2ª linha, logo no início de um romance, «novidade» de certo autor e certa editora, topei com «à tempo» (verbo haver)! Revisores da editora, autor, etc., ninguém viu aquilo?! Quem vê, hoje?
Pois é, somos poucos!!!
Obrigado, amigos, pela vossa atenção!
Ars