segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pátria sem filhos

Desde que as nossas escolas começaram a ensinar competências e já não saberes, parece que deixaram também de ensinar o amor da pátria. É um sentimento estranho, mesmo exótico, agora. Em Portugal deixou de valer o patriotismo, talvez seja assunto entregue ao cuidado de alguém que é pago para sentir por nós o que nos competia.
Nesta atitude, escandalizam-nos os estrangeiros que vêm gozar as suas reformas ao nosso sol e, com imenso topete, desfraldam a bandeira da pátria de origem no mastro da casa que compraram no All…garve. Pois querem ensinar-nos o quê?! O português emigrado não faz isso e, quando regressa à pátria, até exibe em casa a marca de onde veio. Não tem por costume implantar no jardim ou no quintal um pau de bandeira e, ainda menos, de o enfeitar com o símbolo nacional - símbolo que não tem na gaveta. Basta-lhe exibir a bandeira da sua equipa de futebol.
O português alheou-se do sentimento patriótico, que passou a considerar rançoso, tonto, ridículo. Identifica-o por aproximação com uma ideologia nacionalista, de direita. Acha que este tempo é de globalização (conforme políticos e empresários gostam de repetir): na mundialização, portanto, se diluem as fronteiras e, ó maravilha, já declaram o português cidadão europeu.
Evidentemente, o comércio reclama portas abertas em geral para transpor livremente os limites territoriais e os fluxos financeiros não lhes ficam atrás, se é que não lhes cortam caminho. Mas estamos perante uma confusão tremenda que se foi instalando subrrepticiamente, desde data recente, no imaginário colectivo. Talvez haja bom motivo para supor que a mudança se iniciou, nos anos ’80, com a entrada de Portugal na União Europeia.
Todavia, a integração europeia não apagou as nacionalidades: integrou mercados e consumidores, políticas económicas e financeiras dos países envolvidos,. A dimensão sociopolítica ficou sentadinha na sala de espera e vai-se entretendo com uns acenos. Por outras palavras, a União Europeia continua composta por uns tantos países: uns principais, outros secundários, uns grandes e fortes, outros pequenos e anémicos… e, claro, aos principais sobra egoísmo nacional.
Verdadeiramente, qualquer que seja a ideia que aloje na cabeça, o português compartilha de algum modo, com a sua sorte, a sorte da pátria que é sua. A soberania dos Estados, aparentemente, anda enfraquecida, as nações e os povos sofrem atropelos neste ambiente de desregulação arbitrária, mas esses são outros tantos problemas da nossa época que urge resolver. Vendo limpamente através das cortinas em suspensão, o amor da pátria é tão necessário hoje como ontem. Com esse amor nos agarramos ao chão que pisamos - a rua, o bairro, a região, o país em círculos sucessivos – e, defendendo-o, nos defendemos. É o nosso barco, queiramo-lo a navegar. O sentimento patriótico, sem sofismas, abre-nos os olhos para o que de facto é nosso; teremos a segurança e a tranquilidade possíveis cuidando do que compartilhamos e nos pertence.
[Ilustração: Mãe, desenho de Isa Ventura]

1 comentário:

Carlos Rebola disse...

…e temos uma riquíssima cultura recheada de coisas e de pessoas maravilhosas.
E a nossa histórica pátria merece ser defendida, de todas as intromissões que tendem a descaracterizá-la, penso que o nosso "fundo" ou potencial de segurança passa pela nossa identidade histórica, cultural e científica.
Um abraço amigo Arsénio
Carlos Rebola