sexta-feira, 4 de abril de 2008

Viramo-nos para os mestres

A literatura anda a encher-se de buracos negros. Estes fenómenos cósmicos, pouco estudados porque são da esfera do conhecimento astronómico desde há pouco tempo, são igualmente novos no âmbito da criação literária. Têm duas semelhanças fundamentais: no céu como na terra, uma poderosa força gravítica suga tudo em redor para dentro do buraco com um apetite insaciável que devora a própria luz.
Um buraco negro pode assim ser comparado no céu a uma boca hiante, assustadora porque por ela se esvai tudo e mais alguma coisa, apenas deixando cá fora o negrume. No âmbito da criação literária, ao nível do que é terreno, verifica-se outro tanto, pois um buraco negro consegue aspirar de longe e engolir tudo o que seja «criação» literária e «literário» na criação.
De algum modo, este último buraco aproxima-se bastante da designada escrita criativa, recurso último de quem aparece com pouco para dizer e pretende encher papel. Sobra verborreia fácil. Pega numa qualquer ponta de fio, vai puxando, puxando, e o novelo (a obra) fica feita! Mas é escrita em voga, conquista autores e leitores, persuadindo aqueles autores de que hoje está já tudo dito e plagiado quanto baste, e estes leitores de que embora a escrita criativa não pesque novidade nenhuma para desfrute do leitor, pelo menos tem-no a ler e até chega a convencê-lo de que ombreia em inteligência com o autor (com isso se paga o fulaninho).
Estamos, portanto, na hora de nos virarmos para os mestres. Para Aquilino, escritor admirável a cair na mais lamentável e mesmo escandalosa penumbra! Aquilino, o autor de O Malhadinhas não menos do que, por exemplo, Quando os Lobos Uivam. Justamente consagrado como o maior prosador português do século XX!
A probidade intelectual aliada à honesta competência de beirão serrano que pontificou no Chiado literário e mundano, foram traços em realce aquando do centenário do nascimento de Aquilino, em 2005. Lavrou cada página com a destreza e a corajosa determinação do lavrador que desafia as pedras do campo com o bico do seu arado e semeia enfrentando as traições do tempo.
Tinha plena consciência profissional do trabalho que o amarrou à banca. Escreveu (apenas um trecho): «A classe dos trabalhadores das letras é pois um órgão vivo, dentro do grande organismo que é o Estado. Imagino que exportar livros da nossa cultura, da nossa História, da nossa maneira de ver o Mundo, se deva antepor, em escala de importância , a exportar chitas ou caixas de sardinha. […] A França deve o prestígio que tem no Mundo à sua literatura, que, de resto, constitui um dos seus primeiros artigos de exportação. Por isso, subsidiava e subsidia, no estrangeiro, livrarias e institutos, e os seus homens de letras de categoria estabelecida são simultaneamente os seus agentes diplomáticos.»
Mestre Aquilino não quis nada de escrita criativa, preferiu ser criador na escrita. Não quis ser «fácil» de ler, autor de consumo rápido que rápido o leitor digere mas que o engorda e não alimenta. Entretanto, esta singela evocação e homenagem ocorre no dia em que o ministro da Cultura, a enaltecer a língua portuguesa, afirma nos jornais que Fernando Pessoa tem mais valor económico do que a PT. Pessoa deve ter aberto no Panteão Nacional os olhos para a maravilha mas Aquilino, ali ao lado, continua sem arejo.

1 comentário:

Carlos Rebola disse...

Um abraço amigo Arsénio

É dos nossos Mestres que devemos, beber os valores humanos que cada vez são menos visiveis, Aquilino, Pessoa, Torga, Carlos de Oliveira,... Obrigado Arsénio por mos tarzer, hoje, à memória.
Bom fim de semana.
Carlos rebola