quarta-feira, 14 de maio de 2008

Chove publicidade

Os publicitários apoiam-se energicamente numa teoria para defenderem a sua profissão e a validade do papel que a publicidade desempenha na esfera da economia. Alegam que a publicidade serve os consumidores, não porque estimule sobretudo a concorrência, sim porque, ao expandir os consumos, faz crescer em volume as produções e daí virá o respectivo embaratecimento. Assim, pela teoria, saem a ganhar os conumidores.
Evidentemente, o que os consumidores querem ter para compra é artigos baratos e da melhor qualidade possível. Porém, isso vai-se tornando miragem no deserto. A carestia é geral, os preços sobem, o valor do dinheiro é comido pela inflação enquanto os níveis de rendimento estagnam ou, na realidade, diminuem.
Entretanto, chovem as campanhas publicitárias, os anúncios, as promoções, os estratagemas, as habilidades de vendedores de feira. Os televisores, a imprensa, a rádio, os espaços públicos, os computadores, os telefones domésticos ou pessoais… andam sob uma frenética invasão de reclamos. A inundação chega-nos às caixas de correio e bate-nos às portas.
Esta manhã a campainha tocou com insistência. Vozes anónimas anunciavam a distribuição de publicidade; outras vezes, sem se anunciar, o distribuidor esperava que a porta se abrisse para despejar o saco. Mas pouca gente tolera já o desperdício. Então, em alternativa, os papéis são deixados em monte, â entrada.
Na verdade, parece que chegámos ao tempo de recusar mais publicidade para a compra do que não podemos alcançar ou para o que não desejamos. Possivelmente os consumidores estarão a perceber que a despesa feita pelos fabricantes e comerciantes com cada campanha de anúncios entra sempre nos custos do produto e que estamos agora a querer, claramente, artigos mais baratos e de boa qualidade. É suposto que, em numerosos casos, a publicidade encarece inutilmente artigos de uso indispensável ou quotidiano.
Julgar-se-á decerto que neste ambiente de crise instalada há quem tente sobreviver para não morrer, jogando ao máximo nas operações do mercado, mas nem as empresas reclamadas nem os publicitários poderão rebater facilmente a contra-teoria segundo a qual a despesa de uma campanha de anúncios tem que ser paga pelo próprio produto promovido. Não estamos em época de prosperidade, de expansões do mercado, sim em época de sinal inverso. Entre tanta desregulação global, a realidade vê-se nua.
Seja como for, uma questão emerge neste quadro. A publicidade distingue-se da propaganda porque obedece a um código deontológico que impede por exemplo a publicidade enganosa. Apela ao consumo, atrai os consumidores e ponto final. Manipula às claras, digamos assim, recorrendo inclusive à análise dos comportamentos psicológicos. A propaganda, não. É insidiosa, mal intencionada. Tenta dominar os cérebros, não para qualquer consumo, mas para colonizar as consciências.
Questão a analisar seria a de saber se a publicidade continua entre nós fiel ao seu código deontológico ou se anda a contaminar-se com alguma propaganda.

1 comentário:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio
Lembro-me da venda da “banha da cobra” e da “pomada indiana” nas feiras da nossa região. Hoje a “propaganda” publicitária segue os mesmos princípios mais requintados porque já não é dirigida a gente humilde na maioria cheia de dores que a dura vida lhes oferecia e assim desejosas de qualquer “panaceia” que ao menos lhes minimizasse o sofrer.
Primeiro prende-se o público alvo com uma “imagem” choque irreal, “uma cobra monstro de duas cabeças” numa caixa nunca aberta.
Segundo apelidar o produto de qualidades maravilhosas nunca antes vistas.
Depois, depois
Bem depois compram-se (vendem-se) “sumos” os melhores diz-nos a propaganda, com 1% de sumo natural e 99% água, adoçantes, aromas e tintas… Vendem-se sabonetes que são cheirados e tão bem cheiram, mas o que está perfumado é o papel… O cheirinho da carne assada dos hambúrguer é fruto dum aroma artificial incorporado na carne…
E os preços aumentam, tentando convencer-nos que é o contrário que está a acontecer,
Será possível ter luz dum candeeiro que consuma petróleo a 17 tostões (1,85 cêntimos) o litro?
É a velha história de “Hans Christian Andersen” “O rei vai nú” todos sabem, mas mesmos assim todos dizem, porque é correcto (formalmente) pensar o contrário. O mesmo é dizer todos se auto-enganam, menos o néscio (a criança) que não se deixa enganar e não entende que todos digam que o rei vai majestosamente (Realmente) bem vestido, quando ele vê que é mentira e grita “O rei vai nu” e a coragem do “néscio” tem seguidores, mas só depois do seu grito… Parece-me que há muita gente que não se importa de ser enganada. É “chique” estar na moda e na “marca”…
É nisto que reside o êxito da publicidade…
Desculpe a extensão do comentário.

Um grande abraço amigo Arsénio
Carlos Rebola