domingo, 25 de maio de 2008

Coragem, vou à Feira do Livro

Por favor, emprestem-me o vosso olhar. Estou a encher-me de resolução para ir à Feira do Livro cá da minha cidade. O evento realiza-se há tantos anos quantos eu tenho de existência, mas a vida vivida desviou-a dos meus trilhos, estou agora irremediavelmente distanciado.
Fui informado de quantas editoras participam, quantos stands se alinham em alas paralelas, quantos milhares de títulos estão presentes nas estantes e nos escaparates. É certo, a feira tem vindo a crescer imparavelmente. Já não tenho mais olhos para a monstruosidade.
Tanta farturinha asfixia o visitante, seja o curioso mediano ou o leitor entendido. Percorrem aturdidos a feira, sentindo o desejo de pegar num livro a esvair-se-lhe em poucos passos. Livros e autores dos supermercados, dos quiosques e das estações de correios misturam-se de cambulhada com frases espaventosas, capas berrantes de best-sellers de ontem, de hoje e de amanhã, os autores nacionais com os estrangeiros.
É impossível não lembrar os livros que têm em casa não lidos ou mal abertos e que os enfastiaram, para quê comprar mais leitura? Está provado que um romance até pode ser bem escrito, o autor ser célebre e celebrado, além de português, nosso, e nada, ou pouquíssimo, se conter nessa narrativa cuidadosamente construída mas vazia por dentro. Parece que a realidade do mundo em que vivemos não tem mais histórias para alimentar as ficções, resta explorar a chamada escrita criativa que no cisco desliza.
Mas então, senhores, para quê montes de papel estragado? Existem tantas editoras neste país ainda tão pobre e atrasado, tanta gente a produzir literatura, fazem-se aqui mais de mil edições novas por mês… E tem avançado a concentração das editoras, a maioria caiu já nas mãos de apenas três entidades capitalistas, o monstro deixou a cabeça a descoberto.
Têm avançado também as feiras do livro pelo país, as feiras de saldos, restos de edições ao desbarato, feiras e mais feiras. Disse-o em tempos: o livro banalizou-se. Agora, quando o conteúdo se esvai, distingue-se e proclama-se o cheiro do papel impresso, o manuseio sensual do livro - a exterioridade!
Outrora, na vetustez das idades, o livro valeu pela escrita que continha. Livro e edição respondiam bem à necessidade literária. Podiam surgir em papel áspero e amarelado, com folhas dobradas por cortar mas cosidas, e mal brochado, de capas pobrezinhas… Falavam, porém, das angústias concretas de gente real, falavam da vida autêntica em epopeias grandiosas ainda que fossem quotidianas, e os leitores estremeciam com cada estrebuchar de humanidade que os humanizava.
Hoje o livro-objecto inunda o mercado. É a mercadoria do negócio da indústria cultural que esconde na paisagem alterada o Livro que teima em manter a sua antiga dignidade perante os leitores. Se este Livro permanecer escondido, a paisagem irá encher-se definitivamente de fabricantes de livros-objecto e então o remédio último será o regresso aos queridos livros antigos para o reencontro na leitura da dignidade perdida.

2 comentários:

Carlos Rebola disse...

O livro tornou-se um produto meramente comercial como um detergente qualquer.
Troco de muito bom grado uma visita a um alfarrabista por uma visita a uma feira do livro. É preciso “olho” para encontrar qualidade no meio de tanta quantidade.
Hoje há tanta oferta de livros que este deixou de ser apetecido, como era no meu tempo de criança que ansiosamente esperava no “largo da capela” do Zambujal a vinda quinzenal da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian.
Obrigado pelo excelente post.
Um abraço
Carlos Rebola

vidaprovada disse...

Também fui à feira do livro no passado Domingo e aquela fartura de livros a escorrer pelas bancadas de exposição, em lugar de me abrir o apetite à satisfação dos desejos literários, retraiu-mo, à semelhança do que acontece com os modernos casamentos que se festejam em torno de mesas fartas de iguarias, mas que só de olhar para elas já um organismo fica repleto (e tantas vezes enfastiado!) No caso da feira que visitei, ficou-me a sensação de fartura balofa. Tantos livros e tão poucos com conteúdo que mereça o investimento do nosso precioso tempo!

Um abraço,

Isabel Domingues.