sexta-feira, 2 de maio de 2008

Tradutor mal pago apaga-se

Ocupei muito tempo de vida a traduzir livros, trabalhando para editoras de Lisboa e do Porto. Só uma «História do Mundo» levou-me uns bons três anos, pois abrangia dez grandes volumes. Uma certa quantidade de traduções puderam sair anónimas mas, contando apenas as que receberam o meu nome, postas em rima, suponho que chegam à minha altura. Acontece, porém, que tal rima ninguém a suspeita ou descortina.
Realmente, o tradutor apaga-se por trás da obra que verte para a sua língua materna. Poucas vezes sobressai e ganha prestígio pessoal pela competência e talento que, nos melhores casos, revele nesse ofício. Trabalha, afinal, no recolhimento do seu espaço doméstico, à margem de contactos sociais, talvez isolado como um eremita. Ganha pela empreitada que aceitou fazer e habitualmente tem prazos a cumprir.
Depois de longamente porfiar, o tradutor vê espalhadas pelas livrarias e pelas bibliotecas as «suas» obras, mas apenas ele as junta na retentiva. Mais ninguém irá ver juntas as migalhas do seu «bolo» e reconhecer pelo nome quem o levou ao forno, salvo se algum curioso for espreitar os registos do catálogo nacional de uma biblioteca pública.
Quer isto dizer que o tradutor até pode possuir as capacitações suficientes ou sobejas para realizar obra literária própria e, no entanto, por qualquer motivo (usualmente material), desiste e resigna-se. O domínio e bom manejo das línguas (duas, pelo menos), a segurança e fluidez da escrita combinadas com uma especial sensibilidade para notar as subtilezas de estilo de cada autor e a destreza para encontrar equivalentes expressivos para esses trechos são, nomeadamente, alguns dos aspectos que caracterizam a tradução literária como forma de criação literária e mesmo num exercício tão apaixonante quão desafiante. Mas também não é menos indispensável ao tradutor uma sólida cultura geral.
Por aqui se vê que o trabalho da tradução merecia ser bem pago. Não é. Curiosamente, já foi mais bem remunerado do que actualmente. Nos tempos da tipografia com a velha composição em chumbo, o editor punha diante do tradutor o livro a verter e sobrevinha o acordo. Depois o cálculo passou a basear-se na quantidade de páginas ou de linhas dactilografadas entregues, muitas vezes «a olho». Este sistema apurou-se. Os editores impuseram que o tradutor escrevesse em folhas normalizadas, com número de linhas e linhas com comprimento prefixados. Alegação: dispensavam o cálculo da extensão dos textos.
Onde isso já vai! Na era da informática apurou-se ainda mais o cálculo dos editores. Exigiram os textos em suportes digitais (a disquete, a pen ou outro suporte) e não tardou que a contagem geral dos espaços apenas contemplasse as letras… A paga do tradutor foi caindo, caindo, a sua competência real tornou-se valor um tanto negligenciável… E agora perguntem-me: porque terei eu desistido recentemente de aceitar mais traduções?
De facto, a tradução embarateceu e parece morar hoje nas ruas da amargura. Lembra que esta desvalorização acompanhou a desvalorização geral do trabalho.

1 comentário:

maria correia disse...

Indignada com a forma como os tradutores são tratados em Portugal, tendo sempre que «cumprir prazos para ontem», sendo-lhes exigida qualidade, rapidez e apresentação, nunca ou quase nunca, são pagos a horas, mesmo quando existem contratos assinados. Procurando um blogue ou um site onde protestar, vim dar a este belo e triste texto seu. Sinceramente...A mim já nem me importaria muito o tal reconhecimento ( a maior parte das pessoas nem sequer sabe o que é isso d etraduzir, os livros aparecem «feitos», contentar-me-ia com o reconhecimento pecuniário, como qualquer trabalhador, a tempo e horas. E não, não me falem de «crise» ou «problemas de liquidez» na editora....Porque há smepre dinheiro para pagar a quem nelas trabalha. O problema é que se «pensa» que o tradutor pode sempre «esperar», «aguentar», «compreender a situação»; tretas. É o puro desrespeito pelo trabalho do tradutor que faz com que isso aconteça. Qualquer dia «apago-me» também!