segunda-feira, 12 de maio de 2008

O valor de uma nota varia

Quem diz que uma lei não vale o mesmo para toda a gente abrangida, poderia mesmamente dizer que o dinheiro tão-pouco vale sempre o que mostra valer. Na realidade, o valor de uma nota varia consoante o grau de necessidade que permite satisfazer, dependendo isso, é claro, da circunstância concreta em que essa nota esteja na mão do seu possuidor.
Induz-me ao tema um particular amigo. Disse-me que instalou um novo sistema de aquecimento em casa com tecnologia inovadora («ecológica» a crer no rótulo, mas eléctrica), aquisição paga com uns milhares. Deixou-me a pensar: ele e a família moram naquela casa há uns trinta anos bem aviados; conheço-lhe os convectores eléctricos de parede que lá tem desde o início; assisti depois à introdução do fogão na sala com recuperador de calor e sua distribuição pelos aposentos; depois à instalação de aparelhos de ar condicionado; e agora tomo conhecimento da introdução do quarto sistema de aquecimento doméstico.
Talvez devaneie, porque estou a imaginar que o meu amigo foi sendo atingido pelo fenómeno da «desvalorização» do dinheiro à medida que avançava na carreira profissional e ganhava mais. Há trinta anos auferia pouco e os convectores bastavam-lhe – o valor das suas notas estaria próximo do convencional urbano equiparável –, mas esse valor foi-se alterando pela conquista das sucessivas elevações de rendimento. De modo que, ganhando hoje, em termos relativos. digamos seis vezes mais do que há trinta anos, pode vaticinar-se que as suas notas terão perdido em valor real, para ele próprio, quase outro tanto. Será isto que os quatro sistemas de aquecimento lá de casa estarão a demonstrar?
Dispenso ouvi-lo para ter a certeza de que o meu amigo discorda de mim. Conhecemo-nos tanto quanto nos estimamos. E uma laranjeira dá laranjas, o fruto está para a árvore como natural consequência. Ou melhor, cada caminho que percorremos tem as suas próprias encruzilhadas. Ganhar bem no emprego, ou mesmo muito bem, põe a brilhar a valia do fulano e habilita-o a consumir mais e mais (telemóveis, livros, espectáculos, viagens, restaurantes), a guiar um belo automóvel e a ter direito a duzentos à hora para ultrapassar os lesmas nas autoestradas. O felizardo enche o peito do ar, sente-se erguido na crista da onda, pois acumula casa secundária e casa de férias e consome como os maiores…
A evolução por que tem passado nos últimos anos este amigo segue o modelo «virtuoso» vigente, de ambicionar dinheiro e mais dinheiro para consumir sem baias. Saúdo com sincera alegria a sua ascensão profissional, não esquecendo porém que o dinheiro pode atrair diversas corrupções incluídas as «limpas».
Enfim, o contraste aparece. Experimenta bem o valor real da nota mínima que descubra amarrotada no fundo de um bolso quem se dói de olhar para os estendais de pobreza e mesmo de miséria a crescer ou que, simplesmente, foi assaltado longe de casa, em local desconhecido, e, despojado dos seus valores, precise de beber uma água para acalmar e sair da situação. Vai-lhe apetecer acariciar aquela nota mínima…

1 comentário:

Carlos Rebola disse...

Publicidade

Amigo Arsénio
Lembro-me da venda da “banha da cobra” e da “pomada indiana” nas feiras da nossa região. Hoje a “propaganda” publicitária segue os mesmos princípios mais requintados porque já não é dirigida a gente humilde na maioria cheia de dores que a dura vida lhes oferecia e assim desejosas de qualquer “panaceia” que ao menos lhes minimizasse o sofrer.
Primeiro prende-se o público alvo com uma “imagem” choque irreal, “uma cobra monstro de duas cabeças” numa caixa nunca aberta.
Segundo apelidar o produto de qualidades maravilhosas nunca antes vistas.
Depois, depois
Bem depois compram-se (vendem-se) “sumos” os melhores diz-nos a propaganda, com 1% de sumo natural e 99% água, adoçantes, aromas e tintas… Vendem-se sabonetes que são cheirados e tão bem cheiram, mas o que está perfumado é o papel… O cheirinho da carne assada dos hambúrguer é fruto dum aroma artificial incorporado na carne…
E os preços aumentam, tentando convencer-nos que é o contrário que está a acontecer,
Será possível ter luz dum candeeiro que consuma petróleo a 17 tostões (1,85 cêntimos) o litro?
É a velha história de “Hans Christian Andersen” “O rei vai nú” todos sabem, mas mesmos assim todos dizem, porque é correcto (formalmente) pensar o contrário. O mesmo é dizer todos se auto-enganam, menos o néscio (a criança) que não se deixa enganar e não entende que todos digam que o rei vai majestosamente (Realmente) bem vestido, quando ele vê que é mentira e grita “O rei vai nu” e a coragem do “néscio” tem seguidores, mas só depois do seu grito… Parece-me que há muita gente que não se importa de ser enganada.
É nisto que reside o êxito da publicidade…
Desculpe a extensão do comentário.

Um grande abraço amigo Arsénio
Carlos Rebola