segunda-feira, 5 de maio de 2008

Onde melros joviais

Habito na cota alta da cidade, onde vejo o sol nascer, rodear lentamente este monte nas horas da sua parábola, até cair a ocidente, no oceano. Para mim mesmo repito: as horas passam devagarinho mas como os anos voam! E aqui continuo eu, de mãos no teclado, como gato doméstico tão preso ao borralho que quase nem ousa subir para miar contra a solidão nas telhas do prédio.
Vou descansar os olhos para a janela. Neste espaço interior desenhado por quatro ruas, onde resistem árvores, roseiras, relvas e heras, deviam voejar desde há semanas bandos de andorinhas. Mas o espaço ficou varrido dos arabescos das suas asas negras em contorções de voo no encalço dos insectos.
Há poucos anos elas ainda pairavam por aqui em abundância, mas já não construíam ninhos que se vissem. Escondiam-nos algures, decerto em árvores, fugindo das paredes das casas e das proximidades humanas. Quer dizer, ainda vinham, mas depois desapareceram e julgo que, pelo menos para mim, não tenho mais a Primavera completa.
Vêm, sim, gaivotas em quantidade crescente do lado do mar. Poisam nas cérceas e nas chaminés as largas patas natatórias, enchem os ares de grasnidos estridentes a discutir umas com as outras, descem ao piso das ruas, vigiam nos tejadilhos dos carros quem avance até menos de dois ou três metros. Depois, em segurança, picam sobre sacos de plástico com comida, que rasgam e espalham, disputam com as pombas e afastam-nas.
Na ausência das intrusas, as pombas e os pardais ficam em paz. Catam no chão os restos de refeições que as velhotas da vizinhança, revesando-se (ou competindo entre si?), renovam na «mesa» escolhida, uma velha soleira de porta sem uso. Ao crepúsculo as gaivotas debandam de regresso à orla marítima e então as derradeiras migalhas servirão para engordar ratos e ratazanas.
Num pequeno rectângulo, antigo pomar-horta em plena cidade, onde ainda assomam ramos teimosos de algumas árvores de fruto – uma laranjeira, um pessegueiro – desenvolve-se um silvado espesso e alto, que já avança crescendo por cima do telhado de um armazém contíguo. Sabugueiros alargam as frondes num canto e dão sombra ao chão e a parede alagada de heras.
Por aqui voam e saltitam dois melros de bico amarelo em volteio diário. Poiso certo do casal – se um deles for mélroa – será talvez a árvore mais frondosa deste espaço interior do quarteirão arrumada ao canto mais ermo. Porque é aqui que os dois vivem, tranquilos e contentes.
Vejo-os com simpatia, lembram-me a poesia de Guerra Junqueiro dedicada ao melro do seu quintal e que foi célebre. De facto, também este (ou estes) melros assobiam com gosto horas a fio. Mas…? Voltarei a abrir a janela, tentarei imitar-lhes de novo o assobio jovial para que os malandrins me respondam e retomarmos o diálogo canora interrompido?
Duvido. Ainda me resta assobio, vontade de assobiar? E não me faltam as andorinhas?

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