sexta-feira, 9 de maio de 2008

Comida à mesa

Percorre o mundo um calafrio novo. Vai faltar a comida, o preço dos bens alimentares trepa pelo céu como foguete anunciando a calamidade. É o que vem repetindo a comunicação social mais solícita, os especuladores agradecem.
Sentem o calafrio na espinha os povos empobrecidos e os pobres desde sempre. Os ricos, coitaditos, vêem-se obrigados a reconhecer agora que neste mundo a pobreza é a regra e a riqueza a excepção. Mas, constituindo a minoria, talvez estes se imaginem dentro da nau do novo dilúvio e em fuga da guerra no mundo global.
Os vendedores da Monsanto desfraldam a bandeira dos transgénicos (ou organismos geneticamente modificados) e redobram a grita tentando impingir o seu discurso. A mim, filho de agricultores rurais em zona de minifúndio, a propaganda dos transgénicos traz-me à memória a treta que levou meu pai a substituir os estrumes orgânicos por adubos nos anos ’20 e ’30. Os agentes da CUF pintavam então com as cores mais radiosas um porvir de abundância e paz para todos… que engordou em paz a Companhia União Fabril.
Pois bem, hoje querem convencer-nos de que os alimentos são também formas de energia, comparáveis ao petróleo ou aos biocombustíveis. Deste modo, os seres humanos são vistos como «máquinas produtivas» carecidas do combustível que é cada vez mais caro e mais raro. Situação preocupante? Não em Portugal!
Os governantes desdramatizam. Sorriem, apaziguadores, e recomendam calma. Têm razão. O espaço rural nacional, com a agricultura quase completamente arruinada e que leva o país a importar pelo menos metade do que come, não é motivo de preocupação. É verdade que dois milhões de portugueses foram postos a viver no gueto da pobreza estreme e que a classe média baixa caminha para lá ou já lhe bate à porta, mas, caramba, o país dispõe de óptimos recursos!
Se e quando as cozinhas e as despensas portuguesas estiveram minguadas, teremos para comer os golos nas balizas, tão nutritivos que cada um vale milhões.
Teremos as relvas, inclusive dos campos de golfe que se multiplicam pelo país, relva viçosíssima, rica em clorofila, que vão atrair-nos como burros esfaimados.
Teremos os carros de luxo e toda a abundância circulante que coloca o índice nacional de automóveis-população entre os mais altos europeus.
Teremos os telemóveis excedentes que resultarão da colheita por confisco a quem possua mais de um.
Teremos as toneladas de papel estragado com carinhas larocas e frivolidades, as colecções das lojas de confecções a abarrotar de última moda e os sortidos das sapatarias para mastigar como o Charlot dos tempos difíceis.
Teremos para sobremesa, perfumadora de hálitos, as estantes de chiclets com a gama completa de sabores espalhadas por todo o lado.
Bem pode a comunicação social multiplicar os alaridos contra a falta de comida que já assola o mundo. O governo português não tem realmente que se preocupar, ora essa. Sabe governar ou não sabe?

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