quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pertenço aos meus lugares

Nasci entre pinhais e vinhedos, cedo me habituei aos toros recém-serrados postos em monte que via ainda a escorrer resina branca e peganhenta. Quando quis explicar por que motivo, morando há tantos anos na cidade, não me desligava da minha terra natal e sua região, ocorreu-me a imagem daqueles toros tombados. Exprimia tão bem o que eu sentia que passei desde então a evocar aquela imagem para poupar mil palavras.
Cortado pela base, um toro revela desde o centro até à casca o conjunto de anéis cada vez mais amplos que constituem a sua história de vida. E um homem? Poderá a sua história de vida ser encarada como um desenho de anéis cada vez mais amplos desenvolvidos a partir do seu centro até à periferia?
Eu creio que sim. Tomo mesmo a imagem como uma metáfora capaz de exprimir o que por vezes se me embrulha na boca. Encontrando por aí um caminho que me leva até uma das questões mais instantes do nosso tempo.
Vejamos. Toda a existência se inicia com o nascimento e este ocorre algures, num lugar concreto. Esse lugar fica para essa existência como o seu centro e será em torno desse centro que tal existência depois se amplia.
A apreensão do espaço circundante é gradual, vai crescendo com o tempo da existência e ganhando amplitude… Estou aqui a visionar não apenas uma existência humana, também o centro do toro do pinheiro, os anéis envolventes a crescer, cada vez mais largos, a sucederem-se uns aos outros, anos após ano… Comparação inevitável!
Acontece porém – e aqui está a questão – que encontramos na actualidade uma abundância de existências descentradas e como que privadas da capacidade de apreensão dos seus espaços naturais. Vivem num sítio sem lhe pertencerem. Estranho fenómeno!
Ora eu declarei um dia, neste blogue, a falência do sistema de pertenças, vendo-os como elemento básico social congregador das famílias e de toda a acção gregária, das comunidades pequenas e grandes e, por fim, das nações. Está visto, não sonho mudar o mundo (tão ocupado ando a prevenir que não me mude), mas é a tal questão que respondo quando tento explicar que, simultânea e coerentemente, sou da minha terra natal, da minha região, da cidade em que vivo há 45 anos, do meu país, da Europa e, o mais possível, do planeta Terra.
Nesta atitude, estranho a estranheza que por vezes me manifestam perante o facto de ter vindo a publicar livros que contemplam a terrinha que foi meu berço, a minha região de origem e o meu país. Julgo ouvir esta frase no ar: «Então um escritor volta-se assim para o local e o regional?» Querem convencer-me de algo insólito.
Esquecem porém que toda a existência estabelece um centro de mundo e que é a partir desse centro que se expande. No meu caso pessoal, pertenço igualmente a Bustos, à Bairrada, ao Porto, à pátria, etc., pois tudo isso corresponde a níveis sucessivos de vida que fui atingindo. Se me serrarem pela base, aposto que verão esses anéis rodopiarem volta a volta, em círculos cada vez menores, até regressarem ao ponto central onde tudo se iniciou…

6 comentários:

Rui disse...

Lindas alegorias! Também a minha infância foi "dentro do Pinhal de Leiria"...
Gosto muito de viajar, mas, primeiro, conheço todas as pessoas da minha aldeia: "Fala-me da tua aldeia e falar-me-ás do mundo" (Lu Xun, 1881-1936).
Abraço,
Rui Vaz Pinto

Manel disse...

Mais uma pérola que o Arsénio nos oferece.

Abraço
manel

Arsénio Mota disse...

Rui Vaz Pinto
Manuel J. Ribeiro

Muito obrigado, amigos! É gratificante ter leitores como vocês!
Abraço ambos.

Carlos Rebola disse...

Só alguém como o amigo Arsénio, de muitas vivências, em muitos e cada vez mais largos anéis, poderia ver e fazer esta feliz comparação com os anéis dos toros dos pinheiros. A vida de cada pessoa é assim magistralmente ilustrada, por anéis que podem ser alianças com a sociedade e o seu meio.
Obrigado por mais esta jóia, o Manel chama-lhe pérola e é.

Um abraço
Carlos Rebola

vidaprovada disse...

Meu bom amigo:

Obrigada!
Cada mensagem das crónicas que publicas neste blogue tem um significado especial para mim, porque as leio com o interesse de uma criança sequiosa por aprender com as histórias de vida de um ente querido mais velho e experiente.
Esta, em particular, marcou-me pela força da metáfora e pelas lembranças que me arranca de um passado ainda muito recente.

Aqui, neste país que, com a melhor das intenções, meus pais quiseram que eu acolhesse também como meu, senti, durante muito tempo, uma espécie de letargia em relação à minha identidade patriótica e à forma como deveria relacionar os anos vividos no meu país de origem e os 23 que se foram então somando desde a mudança.

Sentia uma espécie de lacuna entre o antes e o depois de Portugal. Tinha-se alojado no meu íntimo a imagem de uma vida fragmentada em que as lembranças do antes pareciam não encaixar com o depois. Repudiei a mudança e com ela, devido ao desgaste cada vez mais acentuado da situação do país, repudie também, durante muito tempo, Portugal, este outro lugar a que pertenço há tantos anos já! Que absurdo, Não?
Estava, no fundo, a fazer o que tanta gente faz – a fugir da mim própria e por isso a ignorar a realidade.

Já antes, conhecendo, ainda que pela rama, esta minha dificuldade, chamaste-me a atenção precisamente para esse sentido de pertença que apresentas neste post. Cada espaço exerce a sua influência em nós, na medida em que nos permite desenvolver experiências de vida que contribuem com o alargamento dos nossos horizontes pessoais, profissionais, culturais, emocionais, etc.

Pertencemos aos lugares que nos acolhem e estes pertencem-nos, não é caro amigo?
É tão simples não complicar! - dirias tu se falasses directamente comigo.

Um abraço,

Isabel Domingues.

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos Rebola:
Agradecido pelas palavras simpáticas que arranja sempre ao sopro da sua generosidade.

Prezada amiga Isabel:
Percebo no que escreves algo que em mim subjaz aos incentivos que venho repetindo, sobretudo às crianças, para a leitura de bons livros. Acho que a leitura de um texto capaz de nos «falar» tem o condão de funcionar como uma espécie de espelho: mostra-se nele o autor e nele também se revela em súbita claridade o eu do ser espelhado, i. e., o ser do leitor. Em suma, precisamos de ler para melhor nos irmos conhecendo a nós próprios, processo que requer sempre a presença do «outro»... Mas como é grato e estimulante ter-vos, assim comunicativos, em volta deste texto! Fica a pertencer-vos. Muito obrigado!