quarta-feira, 21 de maio de 2008

Texto anónimo achado dentro de uma garrafa

Retratistas diversos têm tratado de fixar a vera fisionomia do povo Tuga. Esforços vãos. Captaram-na com visão muito externa, como se, visto de fora, o povo Tuga fosse comparável e, por esse lado, compreensível. Mas esse povo, o retinto, não evolui com o tempo, não foge à fixação. Nega é o seu próprio retrato na medida em que, imobilizado, com ele se encontra.
Um novíssimo retrato poderá ser tentado desde que não queira ver em movimento uma fisionomia parada. Tentemos, pois, num flash, apontar para o país dos Tugas que se espalha pela «província» e está presente na capital, onde a fisionomia avulta atrás das portas e espreita às janelas de bairros e becos, nos centros e nas periferias (lembrete: esvai-se a cidade nas páscoas e nos natais e então é que se vê a quantidade de país profundo amontoado no topo macrocéfalo nacional). Acumulada a quantidade significativa de povo Tuga, poderá desenhar-se o seu novíssimo retrato a tinta da china, isto é, preto no branco. Começa por apalpar na sombra da história a formação do corpo social, remontando senão ao Fundador, pelo menos a Quinhentos, ao povo das caravelas embarcado ao cheiro de riquezas na lonjura, regressando abonado e tornando a partir sem cheta porque cá não cuidou de encetar bom governo, preferiu esbanjar o ganho. Deixou o governo para outros, já que ele se afidalgava, crescendo em orgulho, entre viagens e aventuras, ao ponto de a pobreza ou a miséria alastrar no país até pedir à rainha a criação da primeira Misericórdia.
A alma desse avoengo - aventureiro em terras estranhas, fidalgo na sua terra (detestável terra, nada faz por Ele!) – passou de geração para geração, alojando-se no âmago do povo Tuga como um atavismo, de onde se projecta em manifestações tão banais que se tornam invisíveis. Manifestações, porém, que saltam à vista quando a alma do fidalgo arruinado, estereótipo nacional, que outrora mandou o criado à rua a esmolar uma côdea para a fome de ambos, é picada e acorda do sono. Então o povo acredita no Pai Natal como uma criança: pede serviçais que o substituam na governação do país, e pede serviçais que lhe escalonem as dívidas e as renegoceiem com o banco. Reaparece pela mão das velhotas «caridosas» que alimentam na rua uma porção de gatos vadios, pombas, gaivotas, ratos, etc., pondo sobejos de comida sobre o papel do recente apelo da autarquia para que tal não façam. Assoma no gesto de quem deixa o saco de lixo à beira do lancil, junto à roda do automóvel que vai esmagá-lo, ou no sorriso da mulher que, contente porque, uau!, «está na tv», explica que a sua situação, com o cônjuge desempregado e ela atingida por extinção do emprego sem despedimento colectivo, é agora uma «situação complicada». O Tuga volta a emigrar por saber que «lá fora» consegue endireitar-se e, milagre!, fazer-se «outro». Se uma tempestade lhe derruba a tenda, reclama que «alguém há-de pagar» os danos, não ele. Discute futebol porque na sua roda é o que mais se discute e ele não quer ficar de fora, ora essa. Os seus vizinhos têm a mania mas ele faz-lhes ver. Afirma como suas as opiniões da cassete do partido e dos maiorais do clube, vota pouco e por fezada. Agrada-se de políticos que julga conhecer por os ver na televisão. Está com a maioria, seja qual for, mas prefere que a maioria rime com ele. Acredita na mediocracia mas ninguém lha explicou e também não pensou bem no que isso pode ser.
[Pela cópia: :-)]

4 comentários:

Manel disse...

Este post é mesmo um achado!
Um abraço
Manel

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Sempre me fascinou uma garrafa que o meu avô tinha no guarda-loiça da sala. Era uma garrafa rolhada e lacrada, mas com um enorme veleiro dentro e dentro dele estavam decerto os marinheiros. O seu post amigo Arsénio fez-me imaginar um povo engarrafado e apagado.
Vejo aqui um povo que pediu uma misericórdia à rainha, mas que está capaz de a vender já de seguida, para com o resultado comprara bronzeador para a pele…
Será que o povo Tuga não terá ao menos a mesma sorte do texto, achar-se ou ser achado?!!!

Um abraço
Carlos Rebola

vidaprovada disse...

Olá Arsénio!

É com grande pesar que revejo, nas tuas palavras, os traços que caracterizam o nosso povo.
A realidade está à vista! A classe dirigente está atenta e faz uso (com abuso!) do que tão bem conhece. Basta olhar para o estado das coisas!
O povo, (coitadinho!) não entende! Anda distraído, longe, próximo das suas mesquinhices.
Lamento que uma minoria de gente, genuinamente mais esclarecida e lutadora, tenha necessidade de mover redobrados esforços para tentar inverter situações tão lamentáveis como as que se têm vindo a instalar no nosso país, por causa das peculiaridades do «Ser Português».

Um abraço
Isabel Domingues.

Arsénio Mota disse...

Ficar na vossa companhia depois de escrever sobre o povo Tuga com a disposição que podem imaginar sabe mesmo bem. E sabe bem acima de tudo porque, fica à vista, há quem olhe para o pobre povo mostrando não lhe pertencer de todo. Logo, ainda temos gente, gente da boa! Pena é não chegarmos a ser a tal «massa crítica» das grandes transformações... e tudo continuar cada vez mais na mesma!
E tu, Isabel, arredia, porque desapareces tanto daqui?
Obrigado a todos!