sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um país distraído

Cena habitual: ao balcão peço um café cheio. Quem atende fita-me e acena um pouco, dá o troco ao último cliente e… vai servir o cliente que chega. Esqueceu-me! De facto, vejo a pessoa que trabalha como que ausente, está ali e também está longe. Repito-lhe o pedido, «café cheio, por favor». A pessoa parece responder «ah!» como quem acorda, vai para a máquina e confirma: «cheio?» Mas a chávena aparece-me logo semicheia e eu insisto: «cheio, por favor». Algo contrariada, a pessoa executa por fim o que lhe peço mas deixa-me em crer que me acha esquisito.
Não é cena episódica. Ocorre num qualquer balcão dos meus e tão frequentemente que se tornou vulgar, logo, «invisível». E assim se manteve até que, um dia, a conversar com um certo engenheiro, por sinal jovem, o contraste saltou para me acordar a atenção. Espanto! Quem falava comigo estava inteiro diante de mim, falava comigo todo presente. Fitava-me e sentia-o tão atento ao diálogo quanto eu!
O espanto apurou-se porque de imediato se tornou perceptível que, por aquelas bandas, normal era encontrar interlocutores «presentes de corpo inteiro». O contraste ficou então estabelecido. Habituara-me em demasia ao meu ambiente cheio de gente desconcentrada, como que pairante, sonhadora, evanescente, e, por contraposição, finalmente descobria-o.
Eu estava, porém, a uns milhares de quilómetros da orla atlântica que habito e à beira do Pacífico, longe, portanto, da pátria lusitana. Mas uma luz acendera-se, uma atenção nova deveria aplicar-se em tal direcção. E foi assim que, desde há anos, ando a observar comportamentos reveladores de vulgares alheamentos no rectângulo ibérico.
Seremos talvez, em parte, um povo distraído por um qualquer fenómeno que estará a pedir estudo ponderado de especialistas da vertente psicossocial. Perguntar-se-á: distraído com quê? Não o perguntem a mim, perguntem ao povo, àquele mesmo povo que parece andar ausente, nas nuvens, e sem querer acordar.

Hoje é dia de inauguração de mais um centro cultural. Bendito país! Cobre-se de uma rede de centros culturais cuja acção «cultural» incide principalmente, ou mesmo exclusivamente, na promoção de espectáculos. Investe-se muito dinheiro na criação de tais equipamentos. Com que fim? Chamar as populações envolventes para consumir os espectáculos que desfilam pelo palco?
Que tipo de espectáculos? Teremos teatro? Do sério, bom? Teremos cultura viva? Literatura, arte? Não. Teremos espectáculos musicais. Muita música, e da ligeira, para abanar o capacete, porque é mais popular e porque a bilheteira reclama freguesia. Talvez da pimba, ou quase, de sucesso garantido. Grupos em itinerância precisam de vender os seus últimos sucessos gravados em CD, agora de venda difícil ou muito lenta nas lojas.
Enfim, há vozes que declaram Portugal com uma economia de casino. A mim parece-me que somos bem mais o país do espectáculo.

2 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Se hoje foi inaugurado mais um centro cultural, hoje mesmo foi aviltado...
Valha-nos o voto contra dum poeta português, tentativa desesperada de salvar a honra da língua pátria, na poesia de pessoa...
Fiquemos tranquilos são dez anos sem erros ortográficos, quantas reguadas (palmatórias) se apanharam por causa deles... valeu a pena?!!! Será que a alma já é assim tão pequena.

O "reallity show" continua...

Um Abraço
Carlos Rebola

A. João Soares disse...

Um interessante texto sobre a forma de estar dos portugueses. No Do Miradouro procuro contribuir para que as pessoas despertem da letargia em que vivem, alheias a tudo o que se passa e acaba por lesar a sua forma de vida. Os que têm iniciativas culturais também parecem andar nas nuvens com a abertura de centros culturais, para acabarem por nivelar por baixo, a abertura de museus e mais museus que ficam ás moscas e servem apenas para garantir emprego aos poucos trabalhadores que têm e um bom ordenado ao director, que talvez nem merecesse o salário mínimo.
Há que repensar Portugal.
Um abraço
A. João Soares