quarta-feira, 11 de junho de 2008

Idosos descartáveis?

São os velhos. Os velhos que poucos gostam de ver e de aturar – e ainda menos de querer. Estorvam a vida de quem tem pressa. Dão imensas ralações a meter no hospital ou num canto onde alguém os guarde mas que nem assim deixam de dar chatices aos seus descendentes, tão atingidos já pela decadência final dos progenitores.
E os velhos multiplicam-se por aí fora quando as escolas primárias fecham e se reconvertem em alojamentos para a terceira idade. A população portuguesa está a envelhecer, é a «revolução grisalha» que também avança por muita Europa. Mas a multiplicação dos seniores portugueses, aparentemente, não reclama nem favorece uma reconsideração social, de resto indispensável, a todos os níveis do problema.
Os costumes não ajudam, longe como estamos da veneração que envolvia outrora os velhos de respeito. Na verdade, a estrutura familiar tradicional enfraqueceu-se e entrou em depressão. Mitos como os da «juventude» e do «consumismo» contribuem para colocar os velhos na condição de supra-numerários no mundo vivo e já sem prazo de validade. Serão por isso descartáveis?
Privados de associação, sindicato ou deputado eleito, os seniores resignam-se. Parecem demais - são «peste»!  Vão para onde os mandam e comem a sopa que lhes servem. Os «lares» (eufemismo vulgar) não chegam para atender à procura, sempre uma lista de espera está à espera de quem chama à porta.
É conhecida esta situação, tal como alguns casos isolados, mais ou menos escandalosos, de maus tratos, que por vezes afloram na comunicação social. Mas isso, a bem dizer, é nada em comparação com o que ouvi, de fonte segura, sobre desmandos e abusos diversos gravíssimos praticados em instituições privadas de solidariedade social (IPSS). A fiscalização da Segurança Social, que subsidia os «lares» e à qual compete averiguar as denúncias, registou-os e ordenou encerramentos (e onde vão depois os familiares meter os seus velhos?!)
Prender um mísero deficiente a um poste, ou manter vários idosos num quarto abjecto, coberto de porcarias, maltratá-los ou descuidá-los, pouco pode estarrecer. Porém, estes casos estão longe de ser esporádicos. E não têm comparação com outros, altamente chocantes. Um exemplo: certo utente entregava a sua pensão, a família ajudava, a Segurança Social subsidiava e, tudo somado, o «lar» recebia uns 2.500 euros! Outros exemplos, menos escandalosos, ainda assim, supreendem.
São frequentes as exigências de elevadas quantias para «furar» a lista de espera e receber um novo utente. É dinheiro que entra nas algibeiras da corrupção, garantem-me. Ocorre igualmente a exigência da entrega, por doação, de casa ou outro bem imóvel pelo idoso para que seja recebido. Casos destes alimentam negociatas e esquemas que envolvem directores, comissões fabriqueiras, etc., entre abastanças particulares sumptuosas que contrastam com a penúria dos «lares» que os mesmos dirigem.
Ora as IPSS, declaradas como entidades não lucrativas, por sinal ligadas na maioria a misericórdias e à Igreja, pedem ao Governo melhores apoios. Reclamam do Estado mais e mais «previdência» mas defendem as privatizações com unhas e dentes. E, nas eleições, guiam os velhos a votar no partido que eles sabem…

7 comentários:

Anónimo disse...

Verdades como punhos!
E, se se quizesse, seria tão fácil o controlo. Ainda na última Sexta-feira jantei com meia centena de colegas da EICVNGaia, que terminaram o Curso Geral do Comércio há 35 anos. Apenas com esse nível de ensino, todos ficámos habilitados a organizar e/ou fiscalizar as competentes contabilidades para estes casos. Porque o fundamental é a honestidade. E compete ao Estado exigi-la!
Rui

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Rui:
Agradeço o que diz.
O assunto impôs-se-me, não pude escapar-lhe em atenção à sua relevância social. Considero porém que mereceria abordagem com mais documentação e mais pormenor, portanto abordagem mais de espaço, o que exorbitaria das características do blogue. Fique então, pelo menos, a advertência. A situação é grave! Sociedade que trate idosos, ou crianças, ou mulheres, ou imigrantes, como meras oportunidades para acumular dinheiro fácil (mas sujo) não será uma sociedade doente, a reclamar tratamento?

A. João Soares disse...

A contabilidade é importante, mas o problema vai mais além, aos modos como são tratados os idosos, muitas vezes deficientes sem autonomia para as mínimas necessidades.
Caro Arsénio, transcrevi este post para o blog Sempre Jovens, do Clube Virtual de Seniores.
Um abraço
A. João Soares

Carlos Rebola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota
(O comentário anterior apaguei-o porque continha alguns erros, o que não quer dizer que este não tenha, pelo menos os que detectei no anterior corrigi-os)
O comentário:

Dá a impressão, ou será certeza, que a humanidade está a perder o seu próprio mote, que é a própria “humanidade”.
Recordo aqui uma “parábola” que, eu quando criança, ouvia do meu avô Hermínio, talvez porque conhecesse oralmente ou talvez tivesse lido, ele lia muito, a “Utopia” de Thomas More (autor que inspirou o “Elogio da Loucura de Erasmos de Roterdão) , contava o meu avô: - ““num país muito evoluído era costume os filhos levarem os seus pais velhos para um ermo monte, para ali morrerem longe de todos, no “conforto” duma manta, quando se tornavam um fardo para a sociedade desse país evoluído, mas um dia um filho ao chegar ao local definido, deixou o pai e entregou-lhe a “confortável” manta, o pai “inútil para o filho” devolveu a manta dizendo-lhe “leva a manta porque quando o teu filho te trouxer para aqui quero que tenhas o conforto que me queres dar pois estou certo (via o andar da carruagem) o teu filho nem uma manta te dará””, recordo-me desta história do meu avô e vejo o seu valor moral e quanto ela é actual, o meu avô morreu na sua cama, em sua casa junto de nós, a família, hoje o caminho parece ao contrário, mas de acordo com aquela historia, “nem uma manta terás”.

Amigo Arsénio ainda há poucas décadas se ouvia dizer, com orgulho e carinho, aqui no Zambujal, “foram os nossos antigos (velhos) que fizeram!” e mostravam, os caminhos que percorríamos, os templos que frequentávamos, também o respeito, a educação, o amor a solidariedade… foi obra dos nossos antigos, antepassados, velhos…
Hoje é provável que digam, os velhos?!!!, até lhes chamam “cotas” (este termo já deve fazer parte do novo acordo ortográfico) “não valem nada nem “nintendo (consola de jogos) sabem jogar” aqui começa o fim da humanidade, curioso é que dizem isto, talvez no abrigo das paredes e sob o telhado (lar) que o “velhos” construíram sem, sequer, serem pedreiros, porque sem a polivalência de hoje, eram tudo na vida e na sociedade, gente, trabalhadores, pais, filhos, avós, respeitadores e respeitados.

Amigo falei da família e do seu ambiente, quanto ao estado, se recordar-mos os anos setenta oitenta do século passado, quando se dizia, melhor, diziam os que passaram o testemunho aos de hoje no poder, que existiam países que eram uma vergonha para a humanidade, principalmente no leste, pois punham as suas crianças e idosos “velhos” em autênticas fábricas de desumanidade, caixotes, catacumbas, não é necessário perguntar se ainda existem porque a resposta está aí e é prática corrente no nosso “evoluído” Portugal.
Está a chegar o tempo em nem a manta será dada para ser usada como leito da morte, “esquife” … deixou de produzir é lixo, “descartável”.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Caro A. João Soares:
Agradeço a sua atenção. E concordo, a contabilidade não consegue «contabilizar» tudo, pelo menos quando existem duas contabilidades paralelas, uma para mostrar e a outra para esconder as trapalhices.

Caro Carlos Rebola:
Conheço a história popular que evoca e que tem diversas variantes, todas, porém, com a moralidade à vista: jovem, não maltrates um idoso porque, no teu tempo, virás a ser outro! Por outras palavras: não faças a mim o que não queres que te façam! O problema, caros amigos, talvez comece neste ponto: quem se preocupa hoje com o que se lhe vai deparar amanhã?! Haverá lugar para a previsão, isto é, não se esgotará tudo num HOJE cegueta?!
Abraços.

Carminda Pinho disse...

Amigo Arsénio,
li o seu texto com toda a atenção que o assunto merece, e fiquei sem palavras. Poucas vezes nos lembramos das pessoas com mais experiência de vida (não gosto de lhes chamar velhos).
O nosso estado não os proteje, muitas das famílias também não, umas por falta de condições, outras por falta de civismo.
Nunca será demais alertar para este problema, como o fez aqui.
Bem haja!

Um abraço.