domingo, 8 de junho de 2008

Miradoiro com ecos

As teclas, hoje, vão descansar? Sinto-me em pousio, não estou para compor, linha a linha, um texto. Escrever o quê?, penso pela enésima vez, duvidando do que irá valer na verdade o meu escrito contra as resistências do mundo. Quem escreve não muda a realidade, opina uma senhora, sem dúvida interessada e culta, num comentário que li agora em outro blogue. Mas, para afirmar a ideia, a senhora também escrevia…
A palavra escrita e posta em público não tem poderes mágicos, é certo, sabemo-lo todos desde que aprendemos a lavar os olhos na água pura da clarividência, por isso repetimos que está escrito tudo o que é preciso para salvar o mundo, falta mesmo só… salvá-lo! E no entanto, quem escreve e publica - podendo embora evocar no seu gesto o homem primitivo que pintava na caverna a cena de caça que pretendia propiciar - intervém afirmando a condição da sua cidadania e toma posições depondo na mesa comum o seu juízo.
Hoje, porém, tolhe-me o cansaço, este cansaço em que me submergem tantas tropelias a correr à solta contra os direitos humanos, contra a dignidade dos povos, contra a inteligência e o simples bom senso lavado de reles interesseirismos. Por algum motivo me espantarão sempre as pessoas, tal como as nações, cuja consciência individual ou colectiva assume a forma e o alcance variável dos seus objectivos egoístas.
Estamos no tempo do pensamento único, que predomina porque vem emanado de cimo (e que por isso contém o selo real da autoridade), já nos habituamos a todos os ataques indiscriminados como estratégia da melhor defesa. É o tempo do unilateralismo, rosto ostensivo do imperialismo. Qualquer causa, ainda que se mostre claramente nefasta, anda por aí a justificar-se com espessas argumentações sem contradita audível e que se impõe pela força bruta das tubas da propaganda. As máquinas dos pregões funcionam a pleno vapor e as multidões encolhem-se atemorizadas.
As ameaças à segurança dos povos e das nações estabeleceram-se como base de uma próspera indústria e, politicamente, isso serve para restringir os espaços de exercíco de cidadania e das liberdades democráticas. A «globalização» expande, diluindo, as fronteiras do «terceiro mundo» até outras áreas, nivelando-as por baixo. A emigração de populações esfaimadas que forçam a entrada em zonas de consumismo e desperdício compulsivo ateia reacções xenófobas e de vesgo nacionalismo.
É possível que, de acordo com uma opinião que parece ir ganhando consistência, estejam a acumular-se semelhanças (ameaçadoras) entre este ambiente geral de crise socioeconómica e financeira e o ambiente que marcou o início dos anos ’30 do século passado. Foi a década da instabilidade social e do desemprego, da propaganda sufocante e da obliteração da inteligência, da ascensão dos fascismos, da guerra civil espanhola, da Segunda Grande Guerra, dos horrores de Guernicas e dos racismos…
Façam o favor de me persuadir: a massa de nuvens negras que avançam pelo céu estão num defeito da minha vista. Mas, à cautela, previnam-se: leiam o post de ontem «A propósito de Vladimir Maiakovski», no blogue Ferroada de Carlos Rebola. Vale a pena!

4 comentários:

Carlos Rebola disse...

Isto é o imperialismo montado, na monstruosa besta, que é o capitalismo selvagem, caminhando a galope para o seu auge (vitória absoluta, sem adversários), a aniquilação de tudo quanto possa ser humano, em favor de tudo quanta possa ser cifrão, no sentido das grandes cifras (cifrão) em dinheiro “riqueza”.
Vladimir Maiakovski e os que leram depois avisam com razão há mais de cem anos para o perigo que a humanidade, (no sentido restrito do que é humano), está a correr em absurdo silêncio.
Obrigado pela referencia ao "Ferroada".
Carlos Rebola

Carminda Pinho disse...

Olá Arsénio!
Muito obrigada pela sua visita.
Mais um bairradino que encontro neste mundo virtual, que não deixa de ter por vezes a importância do real.
Por aqui, já há dois anos, tenho aprendido muito, com quem contacto.

Pois digo-lhe que não...não é defeito da sua vista. As núvens negras estão mesmo por aqui, um pouco acima das nossas cabeças.
Já passei pelo Ferroada do Carlos Rebola e, dou-lhe razão. Vale a pena sim senhor!

Um abraço

Anónimo disse...

Como compreendo essa dualidade contraditória de sentimentos …
O conhecimento é bichinho que vai corroendo o estádio puro da inocência (e ..da ignorância), que se vai desenvolvendo alimentado pelo prazer masoquista do Ser pensante, mas que lhe provoca um sofrimento atroz, levando-o a duvidar da capacidade de lhe resistir. A palavra escrita, inventada por outros como ele, é a panaceia de que se socorre para minimizar o horror do que vê e sente, o grito de liberdade de que necessita para discernir o que o rodeia sem atingir a loucura. No entanto,e apesar de tudo, é a ele que cabe, a esse Ser que consegue ainda distinguir o que é emanado do Olimpo e tido como autoridade, alertar outros Seres para que mantenham a fé no progresso moral e material da humanidade, na melhoria das condições actuais, na evolução social para o bem e para o óptimo.
(Adorei este seu artigo!)
Manuela

A. João Soares disse...

Um bom artigo.
Embora escrever não traga de imediato a resolução dos graves problemas que afectam o mundo actual, não devemos ficar à espera, de braços cruzados, que ele apareça curado dos seus males. Soltando grito de alerta, o rei vai nu, ajuda-se os dorminhocos a abrir os olhos e olhar para as realidades que a propaganda oculta intencionalmente. Quando grande quantidade despertar, a salvação do mundo ocorrerá, se houver líderes que organizem a acção das massas.
A acção exige organização, unidade e disciplina de procedimentos.
Abraço
A. João Soares