sábado, 14 de junho de 2008

O poder de saber

Como se relaciona o saber com o poder (e vice-versa)? Umas quantas vezes, no fio dos anos, me detive já a ponderar a questão em busca do equilíbrio que não negasse nenhuma das duas instâncias. É equilíbrio difícil, dirá comigo quem reflicta um pouco sobre o que é saber e o que é poder.
Regresso à questão sentindo que neste ponto preciso avulta um problema que marca a crise maior do nosso tempo. De facto, o que se nos depara em geral é a predominância (a potenciação) do poder, na medida em que o saber a ele se subordina. Assim, na realidade, se nega na realidade este perante aquele.
O saber colocado ao serviço do poder vive dentro de um compromisso. É um saber condicionado por um objectivo prático, pelo que terá o mérito real que esse mesmo objectivo tiver. Abraçado ao poder que serve, com ele partilhará a sorte.
Evidentemente, nenhuma forma de poder prescinde de saber próprio para se exercer. Cito Michel Foucault: «Não é possível que o poder se exerça sem saber». Porém, que saber será esse? Um certo saber pode adquirir-se tão-só para o exercício de um certo poder (conforme se vê no trivial quotidiano): é o caso do engenheiro que estudou para ter a profissão, do bioquímico que investiga no laboratório a cura de uma doença para a indústria dos medicamentos patentear, do político que militou e se formou no partido para governar o país…
Foucault, no passo acima citado, acrescenta: «não é possível que o saber não engendre poder». Então, vejamos agora, que poder será esse?
O poder, nas suas múltiplas expressões (um império, uma nação principal, um magnata de portentosos recursos), sempre foi precário e muito provisório - o mundo que o diga! Tanta precaridade ainda mais salienta a barbárie em que tantas vezes assenta a construção desse poder. Por outro lado, a ruína de um poder grandioso manifesta tanto mais clamorosamente quão longe, e perdido, andou do autêntico saber.
O autêntico saber não se deixa manipular nem corromper. Desconfia até da força pronta para intervir, talvez da própria vontade de intervir. Recusa, desde logo, o poder pelo poder. Sente que é saber enquanto faculdade livre, actividade poética.
O saber aplicado a fins utilitários compromete-se. Vive a contradição do médico (que recebe o preço da consulta quando, por dever deontológico, deveria tratar o seu doente ainda que ele não lhe pagasse). Nestas sociedades mercantilistas, que tendem a medir tudo pela capacidade material de compra e consumo, escasseia espaço livre para o saber brilhar.
Aliás, se quisermos atinar no ponto certo, concluiremos que o saber se dignifica em verdadeiro esplendor apenas quando se aplica na dignificação e na emancipação da pessoa humana concreta. Na minha ideia, os restantes saberes são plurais. Numerosos e de aplicação especializada, perdem a singularidade.
E eis como, em plena idade tecnológica, estamos no mundo a debater-nos com um défice atroz de saber!

4 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Trouxe-nos para reflexão um tema de grande actualidade.
Neste tempo de consumismos, consumimos montanhas de informações que acabam de ser defecadas sem qualquer assimilação, tal é a velocidade no circuito. Com o saber ele está aí, disponibilizado pelos que realmente são sábios, mas também ele, como qualquer outro produto de consumo, é descartável, salvo raras excepções para alguns que dão o devido valor ao saber.
Tenho a ideia de quanto mais saber uma pessoa possui mais humilde é, ao contrário, quanto mais ignorante mais prepotente é, procura sim ter informações restritas, não saber, que lhe confere um certo poder sobre outros. Hoje procura-se, parece-me o "saber fazer" no encalço da produção. O homem está a ser programado (especializado) como qualquer estúpido e ignorante computador. Instrumento de trabalho.

Um abraço
Carlos Rebola

Anónimo disse...

"O autêntico saber não se deixa manipular nem corromper. Desconfia da força pronta para intervir, talvez da própria vontade de intervir. Recusa, desde logo, o poder pelo poder. Sente que é saber enquanto faculdade livre, actividade poética."
Acrescentar mais, para quê? Penso que está tudo dito.
Manuela

A. João Soares disse...

Eis um tema inesgotável. O poder pelo poder, com arrogância e ostentação, manifesta-se poucas vezes pelo saber, mas mais pelos sinais de consumismo, de mostrar ter. O poder saído do saber é mais sincero, simples, e humilde e indestrutível. O poderoso nem sempre tem o saber suficiente, mas astúcia em suprir a sua falta. Vejamos os discursos de muita gente que, espremidos, não deitam sumo.
Há cerca de um ano um conhecido meu procurou encontrar-se comigo, disse que ia publicar um livro de memórias e deu-me a cópia do prefácio feito por um afamado comentador pedindo para lhe enviar a minha opinião. Não pude deixar de lhe enviar um e-mail que lhe deve ter magoado a vaidade. O prefaciador, não teve qualquer consideração por ele, não leu o livro, tendo parado na introdução onde encontrou o nome de um político, já falecido, de quem tinha sido amigo. O prefácio era um a quantidade de elogios às qualidades desse político, nada dizendo favorável ao autor e ao livro. Teria sido mais interessante para o autor e os leitores ter pedido a um colega a elaboração do prefácio. Para meu agrado respondeu que um amigo nosso, com quem se dava muito intimamente lhe dissera o mesmo. O poder que tentou buscou com aquele nome sonante, ficou gorado. A vaidade raramente dá resultado duradoiro.
Um caso que evidencia o poder do saber: Na década de 40, no despacho com um certo ministro, o Chefe do Governo ouvia repetidamente que «quem sabe disso é fulano» até que o Chefe do Gov, acabou por nomear esse fulano Ministro, apesar de ser jovem e ter uma patente muito baixa na carreira. Assim chegou a ministro o célebre capitão Santos Costa.
Desculpe a extensão, mas as memórias de um velho são como as cerejas!
Abraço
A. João Soares

Arsénio Mota disse...

Amigos, tentei dizer o máximo na quantidade de linhas habitual! Logo, em matéria tão vasta e complexa, resumidamente. Em breve reflexão em tarde de sábado. Acompanhando, ou mesmo sintonizando de algum modo, apreensões que venho encontrando em Manuela, em A. João Soares, entre outros. Não sei se alguém, algures, pensaria em responder aos problemas actuais do mundo com a figura de um outro «despotismo ilustrado» ou algo do género. O marquês de Pombal pertence ao séc. XVIII. Seja como for, gostaria de vincar que para mim o saber se esgota no próprio saber, isto é, que em si mesmo se cumpre em plenitude. Portanto, o poder do saber é mesmo, apenas, o saber ser saber...
Muito obrigado, amigos, pelo vosso estímulo!