segunda-feira, 2 de junho de 2008

Patriotismo futeboleiro

Uma louca vertigem varre o país de lés a lés e, dia após dia, embrulha-o numa onda asfixiante. Televisão, jornais e rádios esbracejam em frenética diligência até à geral sufocação; empresas gritam o apoio tão magnânimo que concedem anunciando-o através das tubas da sua fama, e todos, todinhos no povo raso e mais alguns, não querem ficar-lhes atrás. Rezam mesmo pela vitória dos novos messias que se preparam para salvar a pátria.
Andamos bem informados. Sabemos a cada momento onde eles, os novos messias, estacionam, vemos os seus alojamentos, o cozinheiro explica-nos o que lhe dá a comer, depois o seleccionador, o empresário, o amigo do lado, o médico, o jornalista que está lá a ver no meio do grupo de mirones, torna a explicar coisa nenhuma, e sabemos dos treinos, e dos programas, e das peripécias, e de tudo o mais, e etc., sem esquecer o sensacional caso da formiguinha coxa e de outras niquices em desfile interminável.
No campo de futebol temos o modelo perfeito da sociedade capitalista. Vence ali a força competitiva do dinheiro mais musculado. Educativo até à corrupção das regras.
Aos novos messias, grandes atletas, está garantida uma segurança que nem todos os chefes de Estado com menos de cinco estrelas usufruem. Valem uma carrada de milhões, é claro. São deuses! Esperamos deles o milagre redentor nosso.
E não se vê ninguém a perguntar de onde sai o dinheiro que paga aquela equipa mais os técnicos e quantos a servem, aquela factura toda. Ninguém pára a perguntar-se quanto custa um golo, isto é, por quanto fica cada um metido na baliza dos «outros» e quantos, entre nós, terão de pagá-lo ou já o pagaram. E ninguém parece duvidar que o pé que chutou aquela bola para a baliza tem mérito afirmado para valer, a partir desse momento, mais uns quantos milhões. E o ceguinho ainda menos vai perceber algum dia que quanto mais gente massificada estiver de olhos postos nos espectáculos desportivos, mais os futebolistas vão valer no mercado dos jogadores (tal como os actores do cinema ou da televisão ganham conforme as suas audiências).
Teremos de concordar com os orquestradores de serviço nesta campanha embrutecedora. É preciso convencer o povo de que aqueles novos messias vão salvar a pátria. Basta a vitoriazinha, um golo certeiro. Instalemos portanto no país um patriotismo futeboleiro (depois de alterarmos as feições do sentimento patriótico): na era da «globalização» temos empresas, temos privatizações, não resta mais «país», «nação»...
Que portugueses se preocupam agora, nesta asfixia, com o derradeiro escândalo a eclodir no país? Com a situação dos sistemas da Justiça, da Educação, da Saúde, reconhcidamente essenciais ao Estado democrático? Quem vai perguntar se a Polícia Judiciária, por exemplo, tem reais meios para operar contra os grandes piratas modernos? Alguém irá erguer a voz e perguntar se a pátria tem viabilidade económica ou se estará a afundar-se enquanto prossegue este baile?
Ora! Esperemos o milagre. Basta um golo certeiro e a vitória será nossa. E a pátria será salva! Viva o patriotismo da bola, de bandeiras ao vento nas janelas e nas varandas! Viva!

8 comentários:

Rui disse...

E Aquilino Ribeiro, há mais de 50 anos, a alertar-nos para estas mesmas areias que o Estado de então nos atirava para os nossos olhos (Abóboras no Telhado?).
Abraço,

vidaprovada disse...

Associo a mensagem desta crónica à anterior e, resumidamente, concluo que o futebol é mais uma das modalidades de espectáculo que completa a lista dos eventos que contribuem para a promoção da dita «cultura pimba» no nosso país. A desmedida procura do golo por parte das vedetas futebolísticas, motivadas pela milionária recompensa e pela euforia dos «crentes» espectadores nos milagrosos passes e remates de «chuto certeiro», revela mais um dos traços do género de espectáculo que os mandatários incansavelmente propagam a título de cultura, convívio e expansão da imagem do país. Estratégias de diversão abusivamente permitidas pelos nossos mais altos representantes, a fim de se permitirem cozinhar esquemas e negócios que em nada beneficiam a sorte do povo.
Alimentam-se os sentidos mais primários das gentes, em detrimento da inteligência. Oferecem-se espectáculos de assimilação fácil, rápida e que agradam multidões imensas, em lugar de manifestações artísticas que promovam a participação inteligível dos espectadores. É precisamente neste ambiente de incentivo ao torpor mental que entra o futebol e o seu suposto contributo à exaltação do apelo nacionalista.

O patriotismo futebolístico, alimentado pela incessante exibição dos «produtos» de transacções milionárias agarrados ao mais marcante símbolo de identificação nacional, a bandeira, é descaradamente ofensivo: anda frequentemente de mão dada com gente histérica, a despejar expressões verbais e gestuais vulgares, que normalmente rondam a obscenidade, e a distribuir bofetadas, pontapés e socos por outros espectadores (algumas vezes apoiantes da mesma equipa!)

A continuar assim, os portugueses caminham no sentido da paralisação e degradação da pátria que tanto aclamam nesses grandiosos espectáculos.

Um abraço,

Isabel Domingues.

Carlos Rebola disse...

Alguém, está a fazer milagres para manter estes "deuses" neste, europeu e olímpico, "Olimpo".
Eu penso que são aqueles que confeccionam as bolas com que jogam, por vezes dizem que são crianças exploradas.
São aqueles que produzem os alimentos que eles comem.
São aqueles, que semeiam, aparam e regam a relva onde eles se rebolam, correm e fazem que caiem, chamam-lhe trabalho que deve ser bem pago.
São aqueles lhes fazem as "reais" camas e lhes limpam as "misérias humanas" em silêncio.
Fazem milagres aqueles que aguentam as agressões, que eram para eles.
Fazem milagres aqueles que no fim de tudo choram a derrota e perdoam a estes “deuses” que são indignos de assim serem considerados só pelo facto de serem muito menores que aqueles que os sustentam (quem os veste, transporta, alimenta e lhes paga). Fazem milagres os que todos os dias têm que procurar o seu sustento de sobrevivência vital e nem sequer podem ouvir que os grandes deste mundo estão muito preocupados com o aumento do preço dos alimentos, enquanto saboreiam um "lagosta Suada" e um "caviar" muito preocupados com a provável extinção do esturjão e da lagosta.
Será que o custo que temos que pagar, do que eles individualmente comem num dia é menor que o ordenado mensal daquele (a) que lhes fez a cama, e lhes tratou da relva onde brincam ao custo de muitos milhares de pobres e esfomeados?
Isto é o capitalismo a caminho do seu melhor (como será no auge?)... No entanto dizem que estão muito preocupados com a fome no mundo. O custo dos combustíveis e dos alimentos, como se isso fosse culpa dos extraterrestres “Marcianos”.
Sim senhor amigo Arsénio Mota é licito e legítimo perguntarmos, “quanto nos custa manter-mos estes “deuses” que nem sequer milagres sabem fazer?” Mesmo que milagres fizessem a mesma pergunta se impõe quanto nos custa o “milagre”?

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Amigos
Rui,
Isabel,
Carlos:

Agradeço os vossos comentários. Enriquecem e ampliam o meu texto. E levam-me à questão essencial, que neste momento é: quando uma selecção nacional, ou um clube, chega ao fim do campeonato e canta vitória, erguendo a taça nos braços e ribomba a apoteose, que «vitória» (vendo com toda a clareza!)será essa, quanto «vale» realmente a taça?! Terá mesmo valido a pena transformar o jogo, actividade lúdica, em «espectáculo» e o «desporto» em competição?! Por que motivo quase não se ouve dizer, e tanto se esquece, que o futebol profissional custa mais na realidade do que as receitas que gera, quando este mesmo argumento («dão prejuízo») é usado contra a promoção de eventos de autêntico relevo artístico-cultural?!
Saúdo-vos com amizade!

A. João Soares disse...

Nada acontece por acaso. Algo há por detrás disto para que toda a Comunicação Social, serviços e instituições públicas permitem a paragem de actividade para se verem os relatos dos jogos.
É a preparação e manutenção do «coma induzido» que pretendem para o povo. O embrutecimento dos cérebros do povo é benéfico para a imposição, sem resistência, de regimes totalitários. Hitler pretendeu transformar a sociedade numa pequeno grupo de pensantes e na grande maioria de animais com músculo para trabalhar e com um mínimo de matéria cinzenta que lhe permitisse apenas obedecer sem refilar. Agora, com a engenharia genética e com o controlo central da Comunicação Social esse objectivo é mais fácil de atingir.
O futebol é um meio útil para esse fim e ei-lo no seu melhor para satisfação dos detentores do Poder.

Um abraço
A. João Soares

Anónimo disse...

Belíssimo artigo que reflecte de forma clara aquilo que muitos de nós, gente desconhecida a quem ainda não conseguiram colocar uma venda nos olhos, pensa.
A emoção do nacionalismo futebolístico é, sem dúvida, obstáculo a um progresso cultural e “cabresto” do espírito.
Manuela

Anónimo disse...

No primeiro dia do campeonato europeu entrámos mesmo no delírio! Desde esta manhã, rádio, jornais e televisão vomitam futebol, campeonato, não há mais nada!!! E o povo come tudo o que lhe dão, seja palha seja merda!!! Que povo bem comportado, que maravilha!!! E que descaramento tem quem manda tanto vómito!!! É de fugir,
R.V.

Anónimo disse...

Concordo perfeitamante com o comentário sobre a "paranóia" do futebol que assola o país. Mas, grande mal disso vem da comunicação social e de jornalistas "foleiros", que parece não terem mais nada para comentar. É uma verdadeira lástima e miséria, todo este fenómeno.
Jorge Tavares