domingo, 29 de junho de 2008

Praça da Galiza

Ia já nos 18 anos quando varei pela primeira vez a fronteira nacional. Cheguei a Tui e admirei-me. Era igual, ali, a atmosfera respirável, bati com os sapatos no chão e a terra parecia a do Alto Minho. Até o aspecto do granito velho de muitas moradias continuava a ser familiar.
Todavia, a Galiza foi conhecimento guardado para mais tarde. Demorei, por exemplo, a maravilhar-me na Ria de Vigo. As danças da existência levaram-me primeiro à língua e literatura castelhana e só quando me abeirava dos quarenta fui descobrindo a fala-nai (fala-mãe) e os autores galegos. Cimentei então esplêndidas amizades, andando anos por lá a ouvir os amigos galegos citarem factos históricos do quadro das relações galego-portuguesas que para mim (apenas para mim?) permaneciam obscuros ou omissos.
Pouco a pouco, apercebi-me de que os amigos galegos conheciam bem melhor uma quantidade de circunstâncias e dados históricos da nossa relação comum do que nós próprios. Isso denotava uma abertura e uma estima dos galegos que, estranhamente, deixava indiferentes os portugueses. Tudo contribuiu, afinal, para me alargar os contactos e os convívios, os horizontes culturais e as experiências de vida.
Tornei-me assim num «lapista» (adepto de Manuel Rodrigues Lapa, bairradino como eu, que sempre defendeu a aproximação cultural galego-portuguesa e mesmo a integração da fala-mãe no Português actual, de modo que seria um retorno à matriz original daquele braço linguístico separado do tronco antes comum). E foi assim que escrevi em 1972 um estudo sobre a situação cultural galega (3º prémio de Ensaio nos Jogos Florais Minho-Galaicos, Guimarães), publiquei poetas galegos como Celso Emilio Ferreiro e Manuel Maria (nas Edições Razão Actual que antes criara), colaborei na Encuesta mundial sobre la lengua y la cultura gallegas (ed. Akal, Madrid, 1974), trouxe ao Porto alguns cantores de intervenção e os seus discos, etc. Tantas memórias!
Do outro lado do rio Minho era tido como um amigo, para honra minha. Vinham visitar-me e eu, ouvindo-os lembrar com gosto a época da revista «Águia», de Teixeira de Pascoaes, Manuel Oliveira Guerra e outros paladinos da aproximação galego-portuguesa, ia mostrar-lhes a Praça da Galiza com o seu belo monumento a Rosalia de Castro para os deslumbrar. A pedra trabalhada pelo escultor é na verdade surpreendente.
O estatuto autonómico da até então província e, sobretudo, uma dita «normalização» da fala-mãe, que se caracterizou por lhe impor uma óbvia subordinação ao Castelhano (resultado: um «castrapo» = mistura de castelhano e português), enredou lamentavelmente a questão sociolinguística da Galiza ao ignorar o postulado essencial da doutrina de Rodrigues Lapa. Prosseguiu a aproximação entre as duas margens do rio Minho mas não nas desejadas bases culturais: o designado Eixo Atlântico vale o que vale. Ficou, nesse sentido, o papel exercido durante anos pela revista «Nós», onde tanto colaborei, e as Irmandades da Fala (Pontevedra-Braga).
Serve isto para explicar que existe na minha cidade uma praça com o nome da Galiza e que neste nome se dilata o coração.
[Ilustração: monumento a Rosalia de Castro na Praça da Galiza, Porto]

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Traz-nos nestes tempos do acordo ortográfico, do ("eixo atlântico"?), mais um interessante tema para reflexão, os estudos em que colaborou sobre a aproximação galeco-portuguesa, no plano linguístico,"fala-nai".
Desconhecia esta "escola" se assim se pode dizer, como desconheço uma infinidade de coisas.
Obrigado pela partilha.
Um abraço cordial

Anónimo disse...

Ontem, depois de ter lido o texto "Praça da Galiza", apeteceu-me reagir porque me revi no seu texto. Tentei comunicar-lhe de imediato a minha opiniao mas nao consegui.
Porque me "revi" no seu texto? "Ia já nos 18 anos quando varei pela primeira vez a fronteira nacional". Eu ia nos meus 17, foi em 1965, numa viagem de estudos do então Instituto Comercial do Porto, na Rua de Entreparedes (de também triste memoria porque julgo que o edificio chegou a albergar a tenebrosa polícia politica portuguesa). Levava comigo, por indicaçao de alguém mais velho, uns certos jornais e outros documentos em papel de arroz, para entregar, com senha e contra-senha, a gente da Galiza, que não conhecia, mas que lutava pela mesma causa. Um deles, que nunca cheguei a encontrar, por azelhice minha - Vigo era uma cidade desconhecida para mim, e "Las Traviesas" onde ele morava - soube depois - era o poeta Xosé Luis Ferrin. Aos meus companheiros de viagem e colegas de curso peço desculpa por não ter partilhado como devia com eles e elas. Só um soube o medo que me acompanhou durante todo o trajecto Praça da Batalha até à fronteira. E como o medo era maior do que eu e como não queria recuar depois de ter aceite uma "missão de resistência", ainda antes de o autocarro arrancar confessei a um grande amigo meu (já falecido e de sinal político contrário ao meu) o que levava. E assim partilhei o medo. (Nota: os papelinhos que levava, se fosse hoje, não davam para tanto cagaço.)
Adorei também quando afirma "serve isto para explicar que existe na minha cidade uma praça com o nome da Galiza e que neste nome se dilata o coração". (Também sou da sua cidade, de Cedofeita, e há muitos anos que afirmo ser "galego do Sul". Li os poetas que cita mas não os conheci pessoalmente. Conheci recentemente e num contexto diferente "xente enxobalhada que luta pela independência).
Termino com esta pequena nota pessoal : não tenho a honra de o conhecer pessoalmente, mas suponho que temos amigos comuns. Mais, acho que já fui "premiado" num qualquer concurso em que o senhor era membro do júri, acho que foi no "Flor do Tâmega").
António Barbosa Topa

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Carlos Rebola:
É verdade, estamos sempre a aprender. A aprender o quê? Que não sabemos nada... sabendo cada vez menos!
Mas lembro: Manuel Rodrigues Lapa, nascido e falecido em Anadia, bairradino de gema, lutou toda a vida pela integração da fala e da cultura galega, que ele conheceu «por dentro», na cultura portuguesa com uma dimensão lusófona.
Por outro lado, uma delegação galega participou no encontro internacional, no Rio de Janeiro, há dez anos, que aprovou a nova ortografia agora na berra. E desde então a corrente «lapista» vem aplicando na Galiza, na prática escrita, a nova convenção ortográfica. Não sabia, caro amigo? Fica informado...

Caro amigo António B. Topa:
Agradeço-lhe o seu «comentário», que evoca muito expressivamente um tempo ainda não distante. Evoca o escritor Xosé Mendes Ferrin, que quando o conheci era da linha comunista e traz-me à lembrança outros escritores galegos com quem privei: Xesus Alonso Montero, Lois Carré Alvarellos, Rodrigues Fontenla e outros mais jovens.
Hoje Galiza continua a morar-me no coração porque não falta ali «gente enxovalhada que luta pela independência», conforme diz. Muito obrigado, ó tripeiro da Cedofeita, diz-lhe um bairradino, tripeiro adoptivo há uns 45 anos!
Abraços.