segunda-feira, 23 de junho de 2008

Voz do Mundo novo

O Mundo velho ensurdeceu. Habituou-se demais ao comodismo. Tão-pouco vê bem para lá do alcance dos seus interesses imediatos, que são os do laissez faire. Mas, neste «deixai fazer», a visão excede pouco o tamanho do seu nariz que, porém, como o da fábula, cresce muito por causa das mentiras. Assim desatende o Mundo velho à voz do Mundo novo.
Porém, a concentração da riqueza e do poder atingiu níveis colossais. Transformou-se num factor principal de perturbação mundial e talvez, se tiver tempo para isso, numa ameaça global. À memória vem então certos estudos outrora lidos e esquecidos que analisavam por dentro o comportamento do sistema capitalista. O auge do sistema, gerado pelo auge da concentração, culminaria num autoritário e arrogante imperialismo (económico, político, cultural) inibidor da democracia e da liberdade.
O que parece hoje demonstrado à evidência é que o sistema capitalista, com a sua dinâmica própria, não é capaz de se autocontrolar. Carece das funções reguladoras de cada Estado, amigo declarado do mercado, logo da livre concorrência, mas que intervém na defesa de interesses pontuais privados quando estes tremelicam alegando defender o interesse nacional. As funções reguladoras do Estado e de organizações internacionais (Banco Mundial, Org. Mundial do Comércio, FMI, etc.) têm que ser reapreciadas e relançadas de modo a poderem controlar os excessos dos predadores dos recursos naturais planetários em extinção.
A voz do Mundo novo precisa de se repercutir nos quatro cantos do velho para afirmar o direito geral dos povos e das nações a terem futuro. Para relembrar quanto a pobreza é de regra na extensão do velho - onde crescem as massas gigantescas dos despojados -, e a riqueza excepção. Para apontar que até na nação mais poderosa do globo existem vastas camadas de pobreza e assinalar, no quadro de uma outra escala, agora global, como se reproduz essa assimetria da pirâmide social nacional na percentagem dos países pobres em face dos ricos… a denotar quanto a lógica do capitalismo gera a desigualdade.
O Mundo novo rejeita a partilha dos pólos por várias nações, pois os concebe como verdadeiros espaços internacionais. Aspira à emergência de um governo planetário (talvez uma ONU com reforçados e eficazes poderes de intervenção), composto por todos os países com votos iguais mas valendo o tamanho das suas populações, de modo a proteger o planeta dos desmandos e das loucuras. Quer na mesa alimentos saudáveis produzidos pela agricultura biológica...
A voz do Mundo novo tem tanto a dizer que, começando a falar, quando se calará?


Oiço as queixas que tens do teu mundo e compreendo-as. O mundo não muda e parece cada vez mais irremediável. Mas deixa-me perguntar-te: O que fazes para o tornar melhor? Meramente no teu pequeno círculo? Se achas que não tem emenda, que emenda poderás ter tu?

5 comentários:

A. João Soares disse...

Uma boa análise, repleta de dúvidas e interrogações. Que fazer? Neste momento, ainda é cedo para responder mas a massa vai levedando e há-de chegar o momento, com solução possível. Agora, o poder está nas mãos das grande empresas multinacionais que tudo condicionam no mundo para aumentar os próprios lucros. Não há «poder» político que se lhes oponha, que lhes condicione a actividade xporadora.
Por seu lado, a ONU, não tem mostrado eficiência e não tem capacidade para se reformar. Também os consumidores de nada são capazes por falta de organização e mal esta comece a esboçar-se aparecerão forças estranhas e ligadas ao capital que as dominarão.
Mas não devemos desesperar, a reacção individual, quando generalizada, produzirá rastilhos que farão explodir a bomba. Há que esclarecer, que incitar as pessoas a pensarem por si na busca de soluções, e contactarem a fim de ser criado o efeito de massa indispensável a qualquer movimento social.
Este seu texto, com os outros que aqui tem publicado, é um óptimo contributo para a fermentação das ideias salvadoras do mundo.
Um abraço
A. João Soares

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota
Mais um "artigo" de grande qualidade, desde já os meus agradecimentos pela partilha.
Ao ler esta sua reflexão "bateu-me" de repente um pensamento sobre o que Karl Marx escreveu no século dezanove acerca do proletariado, hoje muitos daqueles, que unicamente tem como rendimento de subsistência a venda da sua força de trabalho, não encontram mercado para ela. Sobre os efeitos do capitalismo aí estão as suas predições a concretizarem-se.
O "mundo novo" tem que ganhar corpo para suplantar este "mundo velho"
Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

A. João Soares,
Carlos Rebola,
Caros amigos:

Gratificado com a vossa companhia, agradeço também a vossa compreensão e apoio. Muito obrigado!

Anónimo disse...

Pois é, pois é...
mas oxalá esse mundo novo não morra ao nascer. :-))
Sertório

Anónimo disse...

Cá regresso ao seu
blogue e através dele a outros,como o "Ferroada" do seu amigo Carlos
Rebola.É com prazer que o faço,verificando uma excelente rede de
comunicação,cultura e amizade que a todos une - trata-se dum contributo
cívico e cultural da maior valia,atravessando a "sua" Bairrada até
Coimbra - por lá vou circulando de vez em quando, sentindo-me mais
acompanhado,através das vossas vozes críticas. Bem hajam. Daqui lhes
envio um abraço.
Rui Almeida