quarta-feira, 2 de julho de 2008

Estou no que escrevo

Conhece-me quem me leu. Conhece-me tão completamente e tão bem quanto mais completamente leu e soube ler o que escrevi. Gente de pouca penetração considera por norma a pessoa opaca, mas quem bem me lê encontra transparências e janelas abertas nos meus escritos.
Estou no que escrevo.
A convivência aturada ajuda ao conhecimento pela proximidade mas contribui também, e talvez não pouco, para embaciar a inteligência correcta dessa relação.
O conhecimento da pessoa através da leitura do que escreveu (de teor não informativo-jornalístico) é de longe preferível na medida em que a pessoa por aí derrame a sua própria humanidade. Porém, mesmo nos casos em que a pessoa aparentemente se ausenta do seu escrito, a pessoa continua lá embora saída para o outro lado do espelho.
Pode acontecer, de facto, que a escrita contenha fortes revelações em negativo. De qualquer maneira, o leitor tem na escrita a imagem cristalizada do fio do pensamento disciplinar do autor, a sua coerência interna em acção. É aí supreendido em acto.
A escrita consubstancia, pois, uma linguagem pessoal organizada na medida em que cada escrevente afeiçoa ao seu estilo expressivo o corpo da língua padrão, adaptando aos eixos paradigmático e sintagmático a matéria verbalizável de que dispõe.
De facto, a escrita cristaliza um pensamento articulado. Revela uma coerência interna, com as suas naturais contradições, e a elaboração das suas sínteses. Permite uma abordagem da personalidade real mais penetrante e esclarecedora do que se a mesma pessoa connosco estivesse em diálogo.
De facto, a expressão oral não possui o rigor da escrita. Amplia as margens da indeterminação expressiva.
A prática frequente da escrita ou da leitura – duas actividades contíguas: quem lê também escreve conforme a interpretação que faz do texto – transforma-se assim numa condição estruturante da inteligência viva. Justificam-se, portanto, todos os apelos que se façam para atrair as crianças e os relutantes da população em geral à leitura.
Certamente não interessa aceder ao conhecimento directo de quantas pessoas escrevem o que lemos nem à qualidade das suas ideias. Porém, é pela leitura de algum escrito que poderemos decidir se esse conhecimento vale a pena deduzindo por simples indício. Na verdade, importa-nos saber com quem lidamos.


Olha-te por dentro. Avalia constantemente o que sentes e como o sentes. Considera essa parte de ti o teu jardim íntimo. E cuida dele com toda a atenção e a ternura toda de que sejas capaz. Limpa-o de ervas daninhas, de lixos incómodos, de parasitismos. Foge das contaminações venenosas ou envenenantes. Respira os melhores aromas que esse teu jardim íntimo, assim cuidado, dia a dia exala. Transforma-o no centro da tua vida mais essencial.
Se consegues sentir o alcance desta mensagem, entenderás também quanto importa à tua qualidade da tua vida a melhor saúde mental. É já teu esse jardim íntimo.

5 comentários:

Anónimo disse...

E... que mais se pode dizer a não ser que há poucos escritos destes? :) Eu li e o texto deixou de pertencer ao seu autor e passou a ser meu :)
Cumprimentos,
Manuela

Arsénio Mota disse...

Cara amiga:
Cumpriu o texto o seu destino - que bom! Desejo-lhe, leitora, o melhor proveito. E, já agora, quando poderei «fazer meu» um texto seu, todo seu?!
Entretanto, cordialmente, agradeço e mando saudações.

Carminda Pinho disse...

O seu "jardim" é muito bonito, pelo que tenho lido aqui.
Tento cada dia fazer, com que o meu
não fique abandonado. Trato-o com o carinho, que me merecem todos aqueles que por lá passam.

Beijos

Carlos Rebola disse...

Caro Arsénio Mota
Só posso agradecer a existência deste seu blog, autêntica cátedra donde o seu mestre, na arte de "exímio jardineiro de belas palavras, ideias e pensamentos" nos dá lições de elevado valor, que nos ajuda a "respirar os melhores aromas do nosso jardim íntimo". Ao visitar, um jardim conhecemos o jardineiro.
Obrigado por mais esta lição sobre escrita e leitura "duas actividades contíguas".
Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Carminda, cara amiga:
Conheço bem o seu jardim, as glicínias da entrada e toda a poesia impregnante, e toda a música envolvente, que o percorrem. Por isso o frequento o mais que posso, sou visitante cordial e agradecido. Por favor, continue!

Amigo Carlos:
A sua generosidade para comigo é evidente. Deixa-me a pensar que «pela generosidade se conhece o generoso» - pessoa de alma grande!
Que bom ter amigos desta valia! Que bom estar convosco! Direi apenas obrigado, muito obrigado, e... atenção, não me estraguem com tantos mimos!