sexta-feira, 11 de julho de 2008

Finis patriae

A última nortada agreste que varreu o país pôs em circulação uma frase alarmante. Anunciava, lembram-se?, que cada português está a dever mil e quinhentos euros ainda que se julgue sem dívidas. O alarme, porém, durou pouco: a nortada que o trouxe também depressa o levou.
Parecia ter pouca ou nenhuma consistência. Como seria possível que «toda» a gente do país devesse uma mesma quantia? E como poderia provar-se essa dívida, com que bases e com que documentos?!
O povo português é sereno, quer tranquilidade para ir tratando da vidinha. Sente que o país vive há anos acima das suas reais possibilidades até por experiência própria, mas não o ensinaram a extrair conclusões. Trata é da vidinha, no desenrasca diário, obrigatório para quantos vivem sufocados por carências e aflições que nunca mais acabam, o dinheiro foge, vê-se por aí tanta coisa à venda e pouca freguesia a comprar ou a alugar, tanta coisa a fechar, a paralisar, empregos sempre a aviar… Não, o povo não extrai conclusões nem teria cabeça para entender o mistério daquela dívida.
Na verdade, os portugueses apenas reconhecem ter país quando têm campeonato de bandeiras desfraldadas e todos ao monte. Governam o próprio lar com o seu rendimento, quando o esticam ao máximo e não chega pedem emprestado, mas isso é a vidinha, desista portanto o explicador teimoso de lhes figurar o país como um lar do tamanho nacional. Escondeu-se a pátria dos portugueses, que todavia a têm debaixo dos pés. A pátria pertence-lhes mas eles duvidam se pertencem à pátria… e se houver dívida a pagar, é quase certo que se resolve a dúvida.
Bom seria, pois, que os governantes, os políticos e os grandes patrões desocultassem a pátria depois de a terem tomado nas suas mãos. Os portugueses ignoram o resultado dos grandes projectos nacionais no plano da economia e precisam de distinguir os investimentos que sejam «produtivos» dos outros socialmente úteis. Deviam ser informados do sucesso que cada um vai obtendo no plano das contas nacionais. Portugal carece de rendimentos para funcionar normalmente, tal como o lar privado (que acode ao «invejoso», o penhorista, com o bem doméstico de estimação para poder atingir o fim do mês).
De outro modo, os portugueses ficam privados de ter opinião perante projectos ambiciosos, por exemplo de obras públicas, agora lançados para a mesa do jogo nacional em jeito de trunfo certeiro. Que atitude assumir no caso do TGV? E o novo aeroporto? E a rede das autoestradas que promete cobrir este pequeno país de portagens?
Com algum motivo a nível popular se repete o dito: «Alguém tem que pagar isto!» Quer dizer: não eu, não tu, não nós, sim os «outros». Dito ingénuo, claro. Estamos aqui para ver os governantes, os políticos ou os grandes patrões aprestando-se para «pagar isto». Ora «isto» está preto. Tornou a soprar a nortada e ouviu-se uma voz anunciando que nem todo o rendimento nacional (a produção) de um ano chega para liquidar a dívida do país. A dívida dos portugueses não tem dúvida.

2 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Máximo Gorky dizia In "Pensamentos inaturais"
Tenho a impressão de que a exclamação 'A pátria corre perigo não seja tão terrível quanto 'A cultura corre perigo´"

O que está em perigo em Portugal, penso que é a cultura daqueles que têm governado o país e muito mal até aqui.

Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Citação certeira e oportuna, prezado Carlos Rebola!
Gorky apontou bem para o nó do problema, convém hoje (no tempo de uma terrível obnubilação cultural, em que tudo o que é «cultura» anda nivelado por baixo, cada vez mais baixo), convém hoje, dizia, defender o valor e o lugar primordial da Cultura, pois a ela e nela tudo se resume!
Abraço.