terça-feira, 15 de julho de 2008

Mando carta

Meu caro amigo, acredita. Isto está preto! Se julgas ouvir o fado nacional nessas queixas, atenta nos sinais que, mesmo assim ao longe, sem dúvida te hão-de chegar. Este país, em vez de se erguer, cai de exaustão.
A dívida ao estrangeiro tem-se agravado - anuncia um ou outro inconfidente quando lhe doem os calos, o que é raro, e pelos vistos já excede os mil e quinhentos euros distribuídos por cada habitante. Então, como indivíduos e como país, estamos mais prontos a consumir do que a produzir? Ninguém parece ralar-se com isso, apenas com as suas dívidas privadas. Entretanto, multiplicam-se as famílias insolventes que pedem em tribunal declaração de falência, arriscando-se a perder o que possuíam (e o que perderiam os habitantes de um país que por fim a declarasse também?)
A população afastou-se do poder político levado pela desilusão, a indiferença ou a suspeita. Tornou-se difícil crer nos políticos do sistema e nas suas políticas, tanto como nos partidos ou nas suas apregoadas estratégias de «interesse nacional», quando é visível a cumplicidade do Estado com os grandes grupos económico-financeiros. As manigâncias e a corrupção invadiram o terreno de lés a lés, instalando a «ordem nova» que escancarou as portas a oportunistas sem ideais, militantes do pragmatismo, medíocres jactanciosos e nulidades de montra em fim de época.
Os políticos do sistema tão-pouco confiam na população. Fogem a debater o custo e o benefício social de cada investimento, de modo que falta desenvolver uma consciência colectiva esclarecida do preço que todos e cada cidadão pagam, por exemplo, para ter submarinos, um novo museu, um centro cultural, uma biblioteca pública. As decisões são tomadas numas instâncias longínquas e opacas, os políticos decidem sozinhos, soberanamente, pelo que tem vindo a definhar a participação cidadã. A Imprensa está domesticada, traficâncias engendram milhares de novos milionários, morre muita classe média.
Adensou-se por cá a confusão de ideias e de valores, de princípios e de métodos. Vozes críticas sustentam que é nesta confusão trapalhona que os políticos do sistema querem viver e que vivem bem no que querem. Contribui decerto para tal situação o fracasso do ensino oficial obrigatório, assolado há décadas por reformas que destroem programas e conteúdos escolares e azedam os professores. Enfim, escasseiam cidadãos. Se houver uns cem mil no país, dizem certos cálculos, perfazem algo como um por cento - insignificante minoria.
E temos os centros históricos das cidades, com prédios a cair pedaço a pedaço. Repete-se que centenas de milhares de casas permanecem devolutas e que milhares de pessoas vivem em alojamentos impróprios. As estatísticas do desemprego não atingem níveis mais sérios graças à emigração, pois a situação interna tornou a sangrar as fronteiras. E parece que nem todos vão com desejos de mandar dinheiro, voltar…
Meu caro amigo, compreendo que digas que também nessa tua sociedade adoptiva existem dificuldades, problemas, mas concorda, as duas realidades em confronto nada têm de comparável. Continua onde estás, vem cá apenas para um abraço.

4 comentários:

Anónimo disse...

Hoje a notícia do dia é a sondagem da opinião que mostra como os portugueses são burros. A sondagem mostra que os partidos PS e PSD continuam a ter a simpatia de quem vota, mostra o que já se sabia. Mas não foram esses dois partidos, mais o CDS, que puseram o país neste estado? Por que teimam os eleitores em entregar o país a essa gente? Não aprendem nada com a direita? Por que tem medo, tanto medo da esquerda, como se fossem criancinhas? Não será tempo de experimentar pôr os votos nos dois partidos da esquerda que nunca estiveram no poder?

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota
Li e reli a sua missiva, estou de acordo com o que o amigo escreve e tomei a iniciativa de recomendar a sua leitura aos leitores do "Ferroada".
Obrigado amigo pela sua oportuna maneira de nos fazer pensar na realidade em que vivemos, as suas crónicas são de fácil e agradável leitura, mas profundas na mensagem, exigem reflexão que resulta em riqueza consciente.
Um abraço amigo
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Caro amigo Arsenio,

A causa do estado de coisas em Portugal nao e unicamente devida ao governo, ainda que o governo tenha o dever de liderar e governar bem o pais para obter um futuro melhor para todos os portugueses. Ha que nao esquecer que individuos tal como governos nao devem viver alem das suas posses e do que produzem. E que se o fizerem, mais tarde ou mais cedo terao que pagar a conta. E isso o que esta a passar em muitas partes do mundo. O cobrador esta a bater-nos a porta.
Ate breve.
O amigo de Linda Ln.

Arsénio Mota disse...

Meu caro Carlos Rebola:
Sempre benévolo, compreensivo e amigo! Muito obrigado pelas suas palavras -- ainda bem que «reapareceu», oxalá que em boa forma!
Votos de saúde.

Caro amigo de Linda Ln:
Pois não, se fosse só culpa de um governo, ou mesmo de um conjunto de partidos, digamos da direita, seria fácil de resolver a questão. Bastaria eleger nas próximas eleições um governo de esquerda. Porém, as coisas não são assim tão simples... e é pena. O país há séculos que busca um caminho e não o encontra. Repito: há séculos. É questão já velha e tratada por variados escritores, em variadas épocas históricas. Portanto, o problema estará num certo conjunto de circunstâncias adversas. Uma tem a ver, certamente, com a índole do povo do país e outra com os seus sucessivos governos, mas isto não esgota a questão, nada disso. Enfim, amigos, é bom ter-vos por aqui, recebam um abraço aagradecido e cordial!