sexta-feira, 18 de julho de 2008

Missionários à porta

Ao tirar a mala do armário, lembrei-me. Foi há um ano. No banco do parque das termas, sábado à tarde, sozinho, lia um livro. Chegou o homem, sentou-se e falou-me: também ele tinha agora vida espiritual, anunciou. Encarei-o.
Homem de meia idade, aspecto popular retinto.
Também ele?! Pois muitos parabéns, apoiei. É bom ter vida espiritual.
Não arranjei outra resposta e o homem apresentou-se de imediato. Era pedreiro. Teve sorte, almas iluminadas haviam acabado por iluminar a sua.
Traduzi: fora arrebanhado por uma seita que o convenceu de que estava ali o autêntico conhecimento do Deus autêntico, que com eles comunicava, o Único digno de adoração entre os falsos deuses propagandeados por apóstolos também falsos. Em troca, o homem entregou a sua consciência e tornou-se tributário da seita, aceitando pagar-lhe uma certa quantia mensal. A salvação custa dinheiro…
Ter vida espiritual, para ele, era com certeza acreditar num ritual religioso e numa promessa de vida eterna para a sua alma quando morresse. Percebi então que o homem viera para o meu banco e que continuava, feliz e contente, a esbarrondar-se em conversa porque me viu a ler um livro. Nem duvidara, tinha que ser uma das tais leituras que ele conhecia; portanto, eu também teria vida espiritual…
Que diálogo estabelecer com tão singelo e por isso tão expressivo representante do país profundo? Não havia «ponte» possível entre nós, a conversa em breve morreu e o homem afastou-se. Sorte minha, voltei ao livro.
Já com os missionários que me assediavam em casa, chamando-me à porta para a grande Revelação, poucas vezes consegui fugir a debates pirrónicos, inúteis e enfadonhos. Advertia-os educadamente (homem e mulher, ele activo e ela passiva) de que não perdessem tempo comigo, era «caso perdido», nada tinham para me ensinar. Mas, em vez de os enxotar para irem pregar a outra porta, sempre o modo educado punha neles a correr a K7 aprendida na formação doutrinal.
Pegavam no Livro bendito, abriam-no num versículo, depois queriam ler um trecho profético no desdobrável que logo insistiam em pôr-me nas mãos… e eu, sem querer virar-lhes as costas, lembrava que os versículos não tinham sido escritos em português, então inexistente, que foram traduzidos de uma língua para outra e para outra ao longo dos séculos e que abundavam as dúvidas e as divergências entre traduções… E que poderia valer hoje a coisa escrita na areia há que tempos? Até o «pai nosso», oração primordial, sofreu emenda no decurso da minha existência! E porque não liam uma boa história dos concílios? E porque desconheciam o significado original, a etimologia, de termos familiares que repetiam sem descanso com outra persuasão, em vez de se empaturrarem com leituras santas?
Embaraçava-os pouco: fanatizados até ao tutano.
Acontece, porém, que os pares de missionários andam agora a sumir-se quase por completo. Raramente aparecem na rua (o homem de pasta na mão, cara conhecida), a caminho de nenhures como se passassem por vinha vindimada. O povo está todo salvo, graças a Deus, ou ficou depauperado e sem dinheiro até para a salvação?

5 comentários:

Carminda Pinho disse...

Amigo Arsénio, estava a lê-lo e a lembrar-me precisamente, no que escreveu no final do seu texto.
É verdade! Por onde andarão esses pobres "vendedores" das palavras bíblicas, aqueles que nos vinham avisar que só haveria salvação para os que acreditavam.
A verdade é que nunca mais os vi por aí, nem à porta de casa, (onde nunca tive pachorra para os ouvir).
Bem diz o amigo...o povo deve estar todo salvo...ou ficou sem dinheiro para a salvação.
Belo texto.
Um beijinho

Anónimo disse...

Caro Amigo:
Revejo-me por inteiro neste texto. Missionários à porta é coisa que fui tendo de sobejo ao longo da vida. Quase sempre aos domingos de manhã, à hora da missa. Pensariam decerto que encontrar alguém em casa a essa hora seria meio caminho andado para converter mais uns tantos à sua Revelação.
Também lhes dava a entender, com paciência e educação, ser um caso perdido nos ínvios caminhos da descrença. Mas insistiam sempre. Às vezes, quando resvalavam para os argumentos rasteiros, do tipo: - "Quem pensa que fez esta casa? Só o senhor? Não, não a teria feito sem ajuda divina" - dava-me vontade de ser tão ateu como Nietzsche, pelo menos. Mas não consigo alinhar com Nietzsche quando afirma que "Deus está morto". Como é que pode ter morrido um ser que para mim nunca existiu?...
Quanto aos tais missionários, é como diz: parece que levaram sumiço. Lembram um pouco os milagres, que têm diminuído consideravelmente da Idade Média aos nossos dias...
Carlos Braga

Arsénio Mota disse...

Carminda Pinho,
Prezada amiga:
Que bom vê-la aparecida pelo meu sítio, ó bairradina do concelho de Anadia!
O seu blogue enaltece a «eterna criança» que tem a arte de ser! Aí a encontrei e apreciei.
Quanto às palavras generosas e simpáticas que diz do meu post, muito obrigado, oxalá as mereça!
Agradeço e retribuo também o beijinho.

Carlos Braga,
Meu caro Amigo:
Seja bem-vindo! E que seja para ficar (pelo menos de vez em quando)!
Você, tal como a amiga Carminda, confirmam: parece que os «missionários» estão a desaparecer. Fenómeno curioso, não é?
A mim impressionou-me deveras a percepção de que o homem, meu interlocutor na cena do parque, entendeu que eu teria «vida espiritual como ele» por estar a ler um livro. Fiquei estupefacto!
Meu caro, aceite um abraço apertado de amizade e gratidão.

A. João Soares disse...

Caro Arsénio,
Que belo texto. Recordou-me três momentos da minha vida.
Era ainda jovem, num domingo, antes de almoço, tocou a campainha e a minha sogra disse para não ir à porta porque eram ... Armei em teimoso e fui. De dentro diziam que a sopa já estava na mesa, depois que ela já estava fria e eu sem poder educadamente afastar-me e fechar a porta. A sogra disse: agora vai ter de as aturar todas as semanas.
Andei toda a semana a pensar como me ia livrar delas. No domingo seguinte, à mesma hora, tocou a campainha, a sogra disse que ela tinha previsto isto e que não fosse. Fui e depressa regressei, para espanto da família. Truque?
Elas disseram: vimos falar-lhe da palavra de Deus. A minha resposta: Deus? Mas com a vossa idade ainda acreditam nisso? Isso são histórias que se contam às crianças para comerem a sopa. Ficaram sem palavras e, depois de momentos de silêncio, a líder balbuciou: Mas o Sr não tem fé em Deus?. Minha resposta: Não vê que já tenho idade para comer a sopa sem ter de ouvir essas histórias? com licença e fechei a porta.
Tive outra história em que fiquei danado com a falta de respeito pelo meu tempo, mas a terceira também me correu de feição. Descia a rua do Alecrim a caminho do comboio e lá em baixo vinham duas mulheres com ar de que me iam abordar e pensei como me livrar delas para não perder o comboio. Mal uma delas me falou, perguntei: A senhora quer mudar para a minha religião? Depois de segundos aparvalhada, respondeu: eu não. Pois então estamos entendidos, também não vou para a sua.
Recordo-me com prazer destes dois momentos da vida.
Mas, por minha iniciativa e perante anúncios no jornal, em épocas diferentes e em duas «seitas» diferentes, fiz um curso de Bíblia por correspondência! com bom aproveitamento!!!
Quanto à minha fé, pode ler-se em alguns posts por altura do Natal e da Páscoa, a minha racionalidade!

Abraços
João

Arsénio Mota disse...

Caro A. João Soares:
Agradeço o seu testemunho e a simpatia. Pôs-me a recordar peripécias análogas vividas por mim e sempre com fracos resultados. Por exemplo, ensaiei dizer aos «missionários» qualquer coisa como: mas que direito têm vocês de virem à minha porta ensinar-me religião? Acaso sabem disso mais do que eu? E não vêem que não vou incomodar-vos à vossa casa? Gostavam, é?!
Ora! Nada feito...
Uma outra peripécia: um certo cobrador (de quotas regulares), que me lembrava imenso o cobrador que conheci numa crónica do José Gomes Ferreira, porque era educado e bom sujeito na sua simplicidade, acabou por gostar tanto de discutir comigo a sua religião que insistiu durante meses a fio para que fosse parlestrar à sua congregação. Esquivei-me sempre, dizendo que não queria tirar ou perturbar a fé de ninguém... Passados muitos anos, ainda o homem me encontra por aqui e cumprimenta com cerimónia!