segunda-feira, 7 de julho de 2008

Terra-berço sob ameaça

Embalados pela melodia dos seus discursos, os políticos não ouvem, não lêem nem querem ver. Os grandes empresários, ainda menos, atentíssimos como estão aos gráficos das cotações e dos lucros. Os ecologistas, esses clamam, mas são poucos e poucos são os que percebem a urgência da mensagem, supondo que podem adiar quando já é tarde demais.
Porque se hoje, por milagre, os poluidores do mundo parassem radicalmente de vandalizar o planeta, os gases já acumulados que produzem o efeito de estufa continuariam a exercer os seus efeitos. Aquilo que a hipotética paragem permitiria, e ainda bem, era atrasar no tempo a eclosão do pior cataclismo. Mas é claro que os poluidores vão continuar, bastante imperturbáveis, a poluir, pelo que o pior, em vez de ser atrasado, é apressado numa progressão imparável, cega e louca.
Entretanto, só não sabe da coisa quem não quer saber. Um querido amigo meu resiste há uns seis anos a crer no aquecimento global, considerando que não estão reunidas provas científicas conclusivas. Todavia, sabemos todos o que aconteceu, por exemplo, com os malefícios do amianto, do tabaco, dos PBC. Os interesses associados às indústrias fazem o máximo que podem para iludir a gravidade das questões – a história não nos ensina outra coisa! – e os governos dão-lhes cobertura.
Os factos actuais impõem-se, nem que seja por simples atitude preventiva, a quem os queira admitir de olhos abertos. Os gases com efeito de estufa, os buracos do ozono na troposfera e outros danos ambientais, vão persistir e agravar-se certamente para além do horizonte de vida de quem está agora a nascer. Os diagnósticos estão feitos e serão cada vez mais catastróficos: a perda das calotes polares, a elevação dos níveis oceânicos, para além dos danos irreversíveis na biodiversidade e nas cadeias alimentares.
Especialistas cuidam que até ao fim do século XXI os mares subirão pelas costas entre dois a seis metros, submergindo largas extensões e mesmo porções vitais de grandes cidades (Londres, Nova Iorque, Nova Orleães?) tão facilmente como já engoliu ilhas do Pacífico. Este nosso jardim à beira-mar plantado pode ignorar a sorte dos londrinos e demais parceiros da desgraça, não pode é esquecer-se da beira-mar. Um pequeno aumento de nível do Atlântico abrirá aqui, ali e além a costa portuguesa à penetração das águas salgadas, submergindo pontos do litoral (nomeadamente: a norte, zonas expostas da ria de Aveiro e as planícies baixas da minha Bairrada natal).
Portugal entregará ao oceano parte do seu território dos 88 mil km2, as Berlengas terão outras companheiras, iremos mudar-nos para o cimo dos montes… se continuarmos, sem fuga possível, dentro deste «automóvel conduzido por motorista suicida que olha pelo retrovisor e não vê o abismo que tem pela frente». O que fazer? Entreguemos antes a condução do mundo às crianças do ensino básico: com toda a sua inocência elas sabem mais que os políticos, que os grandes empresários atentos aos lucros a qualquer preço, que os seus pais-amigos-do-deixa-correr. Até por instinto, as crianças sabem que precisam desta Terra-berço da Humanidade para viver. É única!
[Veja vídeo, 5 min., com discurso de criança em reunião da ONU no Brasil. Apelo eloquente aos senhores do mundo!]

3 comentários:

Carlos Rebola disse...

Caro amigo Arsénio Mota

Mais uma vez é muito oportuno este pedagógico post "Terra-berço sob ameaça", da cimeira dos oito países mais ricos (tão poucos e com quase toda a riqueza mundial) pouco, quase nada foi decidido para minimizar os dois maiores problemas correlacionados que afligem a humanidade, a destruição sistemática do nosso "biótopo" a Terra habitável e a fome que cresce e tende a generalizar-se, já não é só no hemisfério Sul.
Por incrível que pareça, todos os estudos científicos apontam as causas do aquecimento global, mas depois (serão pressões politicas e económicas?) dizem não haver relação provada cientificamente entre causas e efeitos, isto é uma falácia transformada em paradoxo.
Tanta gente com formação e trabalhos científicos comprovados e que absurdamente não são tidos em conta nem sequer ouvidos.
Será que a Humanidade foi alienada ao ponto de aceitar passivamente um processo de auto-homícidio?
Um abraço amigo
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Amigo Arsenio,

Actividades humanas neste mundo moderno tem acelerado e intensificado impactos ambientais negativos no nosso planeta. O problema da poluicao global torna-se critico quando o nivel do impacto ultrapassa a capacidade da natureza de o absorver e processar. Esse e o problema.
A quantificacao dos impactos continua a ser o grande desafio que confronta o mundo cientifico.
A tua preocupacao e justificada.
Abracos do amigo de Linda Ln.

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Carlos Rebola:
Registo com agradecimento as suas palavras, provém de um entendido. De facto, o biótipo do «Planeta azul» é único. Pode ser destruído (e está a ser em velocidade crescente) mas não pode ser substituído. Ora a Humanidade nasceu dentro da natureza, faz parte dela -- não pode destruir a Terra-mãe sem se aniquilar!
É preciso multiplicar os clamores pelo mundo fora!

Caro amigo de Linda Ln:
Defendo convictamente a liberdade de pensar. Não nego a ninguém o direito a ter opinião, seja ela contrária, porque é esse direito que quero ter para mim. E estimo sinceramente o pluralismo de opiniões, considerando-o perfeitamente natural. Assim, se concordas, conforme vejo, com o essencial do que escrevo neste ponto, caro amigo, saúdo isso com prazer e sincero reconhecimento! Estamos a tempo de travar o mal pior!
Abraços.