sexta-feira, 4 de julho de 2008

Testemunhas do tempo

Nascidos nos anos ’30, contamos agora uns setenta e tantos de idade. Se a brotoeja nos viciou na prática da escrita literária, provavelmente sentimos o período das nossas existências como um tempo de enormes convulsões aliado a um desejo imperioso de registar essas nossas experiências. Provimos de um tempo diverso e, entrados neste, algo nos impele a afirmar na praça pública que repudiamos a «ordem nova» e que nada fizemos para a merecer no quadro explicado das nossas histórias de vida.
As crónicas deste blogue exprimem, na sua esteira essencial, uma atitude deste género. E é assim que vem a propósito uma referência a dois novos livros de dois companheiros das letras - Fernando Ilharco Morgado e Orlando Neves - que se prefiguram igualmente como testemunhas do nosso tempo.
Ilharco Morgado tem comigo afinidades curiosas. Publicou também o seu primeiro livro em 1955, em Coimbra, e esse livro foi de poemas. O terceiro saiu no Porto em 1968, onde eu já morava, e creio que lhe saudei Entre Sombras e Claridades numa recensão crítica. Depois, já engenheiro, dirigente cineclubista, tradutor de poesia, etc., andou pelo exílio. A democratização acabou por chamá-lo, mas os impasses do país levaram-no a escrever O Leme e a Deriva – Problemas da sociedade portuguesa, obra de 1989. Agora vai no seu 18º título, As Coisas da Vida.
Neste livro de teor memorialístico e testemunhal, Ilharco Morgado estabelece o juízo do seu tempo num registo que chega a parecer algo didáctico, tão claro e sereno é. Escreve (p. 26): «A história tem-nos mostrado que, mesmo sob o signo das utopias e dos grandes ideais, têm sido cometidos crimes odiosos, como se o bem e o mal tivessem de andar sempre juntos na condição humana e fizessem parte da sua natureza.» E mais adiante (p. 49): «A avidez, a inveja, o ódio, a violência e outros aspectos negativos, radicados no egocentrismo maleficente, não são de molde a desaparecer. E, alheados de qualquer sentido de responsablidade e humanitarismo, continuarão a atormentar certamente a sociedade, sem que se anteveja um curativo fácil.»
Orlando Neves, já falecido, andou toda a vida mais próximo de mim no Porto e em Lisboa. Dedicou-se ao jornalismo, à poesia, à ficção, ao teatro, foi tradutor, director e animador da «Sol XXI»… Esta associação e revista literária, de que fui colaborador, publicou-lhe agora dois caderninhos biográficos intitulados Volume Segundo – Os afectos. No caderninho II (p. 11), confessa Orlando: «Vivi tempos de profunda desilusão.»
Orlando, póstumo, inscreve (p. 8) o seu «pensamento nessas utopias [afectivas], mesmo que totalmente desesperançado, porque sem elas o ser humano nem sequer tem o direito a ser considerado como tal.» Acrescenta: «A luta pela ‘riqueza material’ espezinha-nos: queremos chegar à morte na melhor situação de conforto e, mercê das ideologias, a melhor situação de conforto é, na esmagadora maioria, a supremacia económica. Morrermos ‘bem’ é morrermos ricos ou deixando a riqueza aos descendentes, nem que para tal tenha de se matar o Outro»…

2 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Toda esta desilusão e infelicidade, parece-me, é o fruto da "cultura" do ter em detrimento do Ser.
Vivemos num tempo em que aqueles que acumulam riquezas, (não interessa como), são idolatrados. Enquanto as vítimas dessas riquezas, os pobres que as fizeram, são esquecidos e não raras vezes humilhados.
Um abraço
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Caro amigo:
Cá estou de volta a "Testemunhas do tempo". Foi com prazer que li a crónica, despertando-me
a curiosidade para as obras dos seus companheiros de letras - Fernando Ilharco Morgado e Orlando Neves. Já que nos é dado habitar um carregado de "informação" mediática, torna-se certamente consolador regressar ao testemunho alheio, onde quantas vezes se inscreve a sabedoria, fruto da reflexão crítica, num mundo que corre não se sabe bem para onde... Às
ultimas palavras da sua crónica, citando Orlando Neves a propósito da
luta pela riqueza material, acrescentaria outras, também inspiradas na
sua última crónica: "Salvemos as crianças enquanto não se tornam adultas,iniciando caminho ou descaminho em mundo tão predatório..."
Um abraço.
Rui Almeida