segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Diários generalistas, adeus!

Sujo os dedos nos jornais diários há imensos anos. Posso contá-los (são uns 65), pois estou a ver-me, adolescente, debruçado nas páginas de «O Primeiro de Janeiro» abertas como velame de caravela. Rugia em 1944 a Grande Guerra no mundo (os políticos prometiam-nos que ia ser a última!) e chefiava a redacção do jornal portuense Jaime Brasil, que deixou fama de homem sério, competente e democrata autêntico, amordaçado porém, como todos os jornalistas, pelo regime da censura prévia imposto por Salazar. Neste período, o «Janeiro» colocou-se à frente dos outros órgãos da imprensa diária nacionais ao surgir impresso com duas cores que, misturadas, permitiam a tricromia, novidade apetecível entre a negrura da concorrência.
Acontece que ando agora a sujar não apenas os dedos, também o precioso miolo que o crânio, pela sua dureza, protege. Eis porque estou a despedir-me do último jornal que ainda leio cada vez mais irregularmente, exclamando no íntimo todas as manhãs: adeus, diários generalistas!
O velho «Janeiro» finou-se há semanas após lenta agonia, e passou a jornal gratuito. Foi solução da sobrevivência para o que já estava caduco. Mas os tempos vão maus, vão mesmo péssimos para os diários ditos de informação geral, idem para o jornalismo e para os jornalistas. Não por acaso, a informação já nem se distingue bem da publicidade ou da propaganda!
Depois de ter ficado com o jornal menos mau, verifico que todos são igualmente maus e vou-me convencendo de que que não valem o tempo de os folhear. Podem aprimorar os grafismos, abundarem as fotos, imprimirem-se a cores… porque as vendas caem, as tiragens baixam, e então os ditos correm em busca dos anúncios, muitos anúncios, mais e mais anúncios…
Diz-se por aí que os jovens não lêem imprensa (apesar de convertida ao tabloide), que preferem a Internet. É verdade, pelo computador chega-nos imensa e muito variada informação a casa, mas a dimensão virtual da Net não nega o mundo tal como é, cheio do fervilhar constante de acontecimentos diversos à tona dos dias, cheio de superficialidades e enciclopedismos baratos, pois por ali se expande tudo quanto de nefasto o mundo tem, por vezes até com manipulações horrendas a que não falta cheirinho a enxofre.
Os públicos vão ficando menos informados, ou desinformados, do que realmente acontece na actualidade autêntica que os envolve mas da qual vão sendo arredados, de olhos postos no caminho da bola como se dela possa vir honra e fortuna, ou entretidos com questões de lana caprina. Avulta em crescendo no país um défice de informação jornalística (isto é, fiável, clara e correcta) que se traduz, noutro plano, num défice de cidadania.
Evidentemente, a Net alberga também matérias dignas deveras interessantes e positivas. Mas têm a sorte das vozes que, fora do mundo virtual, apelam para a clarificação das inteligências: a maranha total abafa-as. Enfim, há quem vaticine a morte breve dos jornais de referência. Teremos então chegado ao tempo das ignorâncias e alienações instaladas, propiciadoras de soluções totalitárias?

5 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

A Net por enquanto é uma tribuna ou espaço livre de circulação de informação.
Receio que lhe aconteça o que está a acontecer com os média, mormente os jornais, tema da sua crónica, que mantém a regra da qualidade a que nos habituou, penso que cada vez mais a informação "oficial" "tradicional" está nas mãos de centrais que têm como objectivo manipular e alienar os cidadãos alvo.
Há dias recebi por E-mail um livro em “pdf” intitulado " CLUBE BILDERBERG-Os senhores do Mundo" em espanhol por segundo me disse quem mo enviou a versão portuguesa desapareceu do mercado, se o que ali está escrito é verdade e alguma coisa tem que o ser é tenebroso o que os “grandes” fazem em termos de pressão, manipulação e alienação aos povos e nações da Terra e com êxito.

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Caro amigo:
É verdade que a «globalização» avança, que o «governo mundial» (ou desgoverno?) vai abraçando cada vez mais o planeta. É oportuno, neste contexto, lembrar as tremendas concentrações do poder financeiro e sociopolítico, e desde logo a existência e actividade do «Club Bilderberg». O livro que cita é revelador. Fala da sua edição em espanhol, por sinal do grupo Planeta (!), em português não conheço...
Mas vai-se falando um pouco, o que é pouco!
Obrigado pelo seu comentário, amigo Carlos Rebola!

São disse...

Se me permte, não gostei do modo como o actual dono do "Primeiro de Janeiro" actuou relativamente ao pessoal e ao título.

Saudações.

Anónimo disse...

Amigo Arsénio:
É um facto: a tabloidização ultrapassou todos os limites do decoro e do bom senso. Os grandes grupos económicos não querem comprometer-se politicamente. Fogem da ideologia como o diabo da cruz. Por isso não existe definição ideológica clara nos nossos jornais, impera o reino das "meias-tintas". Prometendo muito no início, a evolução tecnológica não conduziu, na imprensa escrita, ao tão desejado pluralismo dos emissores. O que sobressai é o neutralismo objectivista da ideologia dominante.
Resta-nos (até quando?) a Internet como espaço de liberdade, sem os habituais filtros entre quem produz e quem consome informação. Cuidado, porém, com os novos aspirantes a inquisidores, com complexos de Torquemada.
Carlos Braga

Arsénio Mota disse...

Depreendo que São, autora do comentário anterior, foi despedida com o grupo de outros jornalistas da redacção de «O Primeiro de Janeiro». E diz que não gostou do modo como o patrão despediu. Acho que diz pouco! Na minha opinião, o patrão tratou os jornalistas como lixo que se varre para a rua quando convém. E, ao que sei, substituiu-os por gente ida de «O Norte Desportivo», pau para toda a colher. Pena foi que a luta reivindicativa e a denúncia do caso tenha sido tão frouxa.
Fica claro o assunto? (Que não cabia, obviamente, no espaço habitual da minha crónica.)