sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Mundo perigoso

A concentração dos media em pouquíssimas mãos ocorreu em países europeus da comunidade, não apenas em Portugal. Porém, no nosso país, a concentração adquire aspectos especiais dado o atraso sociocultural de uma parte substancial da população e o peso da «memória» que nela ainda tem a Ditadura. Em geral, a posse de jornais, rádios e televisões, e agora também editoras de livros, na Europa, demonstra o crescimento inaudito da riqueza privada acumulada que chega para investir em estratégias de domínio e manipulação da informação e dos comportamentos massificados; e demonstra mais, as portas francas dos legisladores quando a elas chamam os poderosos.
Não admira, pois, que o poder da Informação (defendido até à dor por gerações de jornalistas) se tenha transformado na informação do Poder.
E foi assim que os jornalistas ficaram como estão: com a dignidade profissional atropelada, embebidos no desemprego ou nos jogos do patrão, na autocensura e numa permanente instabilidade imposta por vínculos laborais precários. E foi assim que, pela conjugação de circunstâncias nada inocentes, se instalou entre nós este jornalismo pardacento e seguidista (basta ver nos telejornais as mesmas notícias, com abordagens idênticas e quase simultâneas). E foi assim que se espalhou pela Europa, com a degradação do ensino público, a «cultura» da verdade única difundida por canais noticiosos principais (ingleses, americanos, europeus), decerto porque os políticos do velho mundo sintonizam a Casa Branca com fervor devoto. Na verdade, parece que a União Europeia quer partilhar o Ocidente com os Estados Unidos, nação altamente militarizada que os pacifistas têm de considerar com bases espalhadas a esmo.
Felizmente, a era Bush está no fim e, com ela, esperemos que se extinga também a gracinha de acusar de antiamericanos amigos autênticos do povo americano, mas críticos de Bush. Só as particularidades do sistema eleitoral da nação o fizeram presidente duas vezes e nunca, tanto quanto sei, o voto universal directo e reconhecido. Todavia, com ele, o mundo tornou-se bem mais inseguro e perigoso.
Ouvem-se vozes a afirmar que os alegados «senhores do mundo», esses sim, são mais perigosos até porque não são evidentes. O livro de Daniel Estulin, de 2005, suponho que ainda não traduzido e editado em português, analisa a existência e o sentido do Club Bilderberg, descrito como um «governo mundial na sombra». Foca o eventual perigo de se estabelecer uma «escravidão total», mas o autor tranquiliza-se, descartando tal perigo. Aponta investigações e ensaios sobre o comportamento humano demonstrativos de que a manipulação deste comportamento não pode resultar de castigos ou penalizações que, embora disciplinem os comportamentos em certa medida, geram – diz ele - «sentimentos de raiva, frustração e rebeldia» (pp 8-9 da edição Planeta, em espanhol).
Gostaria de partilhar da tranquilidade de Estulin. Porém, o que se nos oferece à vista não vai por aí. A saúde mental de uma população convenientemente distraída e cretinizada pode degradar-se mais e mais. Há quem trabalhe nisso (in progress desde o início dos estudos de mercado e marketing, é bom lembrar).

4 comentários:

Carlos Braga disse...

O problema da concentração dos media remete para a badalada necessidade de inculcar ética na técnica. Os cronistas do global são cada vez mais a voz do dono: através deles, o poder político ou económico manda dizer ou não dizer (conforme lhe convém), sugere que se diga da maneira que mais lhe agrada. Pressões nada subtis ou inocentes, como corajosamente tem denunciado José Rodrigues dos Santos.
O pessimismo de Arsénio Mota justifica-se. Mas a História também ensina e consente a esperança. A diferentes formas de dominação material ou ideológica correspondem sempre formas de resistência pública declarada (boicotes, greves, contra-ideologias de negação da ideologia dominante)) ou até formas de resistência disfarçada, subtil, não pública (resistência quotidiana, registos escondidos de raiva ou agressão, criação de subculturas dissidentes).
Poucos dias antes do 25 de Abril Américo Tomás foi ovacionado no estádio do Restelo. Poucos dias depois, o povo saía à rua, em torrente caudalosa, para noivar a liberdade.
Nem sempre o que parece é...

Arsénio Mota disse...

Tem razão, amigo Carlos Braga. Exprime essa esperança toda e ela existe de facto. Lateja também em mim (até porque toda a respiração viva, perdoe o pleonasmo, toda a vida vivida, redunda em afirmada esperança). Conhecemo-nos, facilmente nos sintonizamos em concordância. Neste caso, noto apenas uma diferença de perspectiva ou de abordagem entre nós. Explico-me: ao escrever estas crónicas, algumas delas pelo menos, vejo-me como um alemão, por exemplo, que no início dos anos '30 defende os valores democráticos e em seguida tem de se exilar deixando para trás o que não tem mais remédio: o ambiente social obnubilado, o desemprego e a repressão crescentes, a confusão cultural em aumento... Claro, o nazismo trepou até ao topo, a guerra estalou na Europa e no mundo... e houve tantas vozes a avisar, tanto desespero, tanto sofrimento!
Diga, meu caro amigo: acredita que o mundo actual está a salvo de outra hecatombe talvez pior?
Eu quero crer que sim. Mas cautelas e caldos de galinha alguma vez serão demais?... Porque terá vaticinado Umberto Eco, há uns anos, que entrámos numa outra idade média?
Abraço cordial.

Anónimo disse...

É o seguinte: o país que mais controla a internet no mundo são os Estados Unidos, não a China. Hoje qualquer conteúdo de internet nos Estados Unidos é vigiado, muito conteúdo não é publicado e ninguém fala isso. Outra coisa: os americanos cassaram, no ano passado, 46 concessões de TV. A Venezuela cassou uma e foi aquela coisa que todo mundo viu. O ocidente, do ponto de vista da democratização e dos direitos humanos, está desmoralizado.

http://pagina-um.blogspot.com/2008/08/elias-jabbour-ocidente-no-tem-moral.html

Brandão Gonçalves

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Parece-me que a concentração dos média, todos, faz parte duma estratégia global de manipulação e alienação dos cidadãos concertada com o "new" esclavagismo que já hoje se observa em todas as áreas da economia, os operários(as), funcionárias(os), trabalhadores e trabalhadoras que precisam do que lhe pagam (muito pouco) para sobreviverem, hoje não podem sequer demorar um segundo a mais na satisfação das sua necessidades fisiológicas, nem podem sequer reclamar das suas condições enquanto assalariados, sob pena de serem despedidos (sendo de imediato substituídos por outros(as) ainda mais carentes que aceitarão piores condições), perdendo assim a sua fraca subsistência vital, já não falamos sequer da defesa da dignidade, enquanto seres humanos que deveriam como é apregoado e a revolução francesa impôs, serem livres, fraternos e livres. Estes e outros valores estão a ser jogados no lixo com a destruição do “estado social”.
O livro de Daniel Estulin sobre o Club Bilderberg está na mesma linha do "1984" de George Orwell, só que hoje tudo acontece mais rápido, a nova escravatura sente-se por aí nas mais variadas formas, a começar pelo marketing, capaz de vender frigoríficos aos esquimós... alienação total assegurada pelo controle, monopolista, da informação que “forma” e “educa”.
Um abraço cordial
Carlos Rebola