domingo, 17 de agosto de 2008

A paixão dos rádios

Um velho e estimado amigo surpreende-me pela sua capacidade de paixão, coisa rara nos tempos que correm. Mas acontece. E aqui temos o caso do Manel, o Manuel Silva. Passou tanta vida em volta dos rádios – designados outrora como telefonias sem fios, depois rádio-receptores, agora apenas rádios – que acabou apaixonado por eles. Não os transistores da actualidade, sim os «retro» perdidos da vista, com válvulas metidas em caixas aparatosas.
Na verdade, o Manel aprendeu a consertar os circuitos, a substituir as válvulas fundidas, enfim, a trazer para a vida cada um daqueles objectos mortos. Abriu nos anos ’50, na nossa terra natal, uma loja, a Radiolândia, nome que ele diz ter sido proposto por mim (e o Manel é pessoa séria, não mente). Começou a vender os aparelhos e acabou por os comprar onde os encontrasse, algures no mundo, por vezes caríssimos, para completar as suas colecções.
Actualmente, possui muitas centenas de aparelhos (todos em normais condições de funcionamento, garante ele, e são perto de 1400), desde os mais antiquados, que alinha por marcas e modelos, de fábricas europeias, americanas ou outras. Abundaram sobretudo nos anos ’40-’60 do século passado, ou seja, até ao advento e popularização dos televisores. São um pedaço palpitante de história e de memória, que em nós se aviva perante receptores familiares, que usámos em nossas casas e fomos trocando como roupas velhas através dos anos. E surgem revelações curiosas ligadas à produção e comercialização de certos aparelhos.
O Manel conta com prazer tudo quanto sabe, e é imenso, ao percorrer com o visitante, passo a passo, as colecções que guarda no seu museu. Sim, um museu, que também designa como Radiolândia e que alberga em edifício próprio no local da sua residência, Vagos.
Pode não ser o único do género existente em Portugal mas é sem dúvida importante. Talvez o mais importante. E está para ali, numa espécie de «segredo»…
Felizmente, o amigo Manel decidiu ouvir-me e trouxe o seu museu para uma janela da Net. Qualquer pessoa encontra a Radiolândia na página http://www.cfeci.pt/sites/radiosantigosnoar/links.htm. Temos ali, além de imagens para visita virtual, links para história da Rádio, coleccionadores de rádios antigos, tudo sobre marcas e modelos, quem repara os aparelhos e até um link para ouvir, se quiser, a vizinha rádio Terra Nova, de Ílhavo.
É já, quero crer, alguma coisinha. Só que, à evidência, não chega. E não chega porque mais está para além do alcance daquele amigo, que é capaz de pagar milhares de euros por um único aparelho velho que talvez já nem funcione e que terá conseguido localizar do outro lado do mundo e que faltava à sua colecção, mas se vê sem condições reais para dar ao seu museu o destino mais adequado, a sua abertura e exposição ao público.
Ah, Manel, se fosses Joe Berardo!...

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Um bom regresso à leitura dos Amigos,
Rui

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Rui,
Caros (outros) amigos:

Sim, cá estou de regresso às ocupações e acções do costume. Foi ou não foi um «até já»?
E tu, Rui, sempre atento!
Muito obrigado.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Bem-vindo com as suas crónicas magistrais.
Os aparelhos antigos de telefonia (TSF) são um fascínio, quando era criança (cerca de 5 anos) cheguei a desmontar o velho aparelho do meu pai para "explicar" à minha irmã Teresa onde estavam os músicos e as pessoas que falavam na minha imaginação de "mestre" estavam todos muito pequeninos dentro daqueles tubos de vidro com "palcos, mesas e prateleiras" com luzinhas para eles verem o que estavam a fazer.
Pelo que conta o Sr. Manuel Silva tem uma colecção digna de museu aberto ao público. Vai acontecer decerto, mesmo não sendo Berardo, a paixão move montanhas...
Um abraço Cordial de boas vindas
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Pois, amigo Carlos Rebola, o meu ripanço tinha os dias contados! Mas como é bom regressar ao vosso convívio! Pena é aquele seu adjectivo de «magistrais», peca por (evidentes) exagero e desmesura!
Sim, eu sei, favor de amigo dos bons!
Abraço longo.