domingo, 21 de setembro de 2008

A cócega do humor

Os portugueses vivem num ambiente pesado, andam cabisbaixos, deprimidos, infelizes. O ambiente invade as ruas. Nem as alegrias do futebol já tonificam a alma colectiva quanto baste! A tristeza descamba aqui e ali em situações de naufrágio e desespero. O desemprego, a inflação, o abaixamento drástico do nível de vida, a criminalidade em ascenso, tudo contribui para ensombrar as fisionomias.
Diagnosticar a origem do negrume (os efeitos da recessão, a crise) é pouco. Mas como demora a cura a anunciar-se, e ainda mais a chegar, aí temos a panaceia de recurso: programas de humor diários em opípara abundância. É recurso barato e universal, sem contra-indicações nem efeitos secundários afirmados.
Temos humor na rádio, humor na televisão, humor nos jornais, humor nas caixas de correio electrónico, humor no telefone… humor a correr por todo o lado. Temos produtores de anedotas a trabalhar de mangas arregaçadas. Quem sabe cuidar das necessidades do povo derrama estas brisas frescas no país murcho e entorpecido.
Mas o humor é coisa séria, voadora e bonita como a borboleta bela-dama. Aparece e acontece de asas abertas ao ar livre quando muito bem entende e o sol brilha, não em locais fechados de produção diária, em série, onde os martelos dos profissionais da anedota nacional, batendo nas suas bigornas, arrancam mais barulho do que humor. Espalha-se então a gracinha sem piada nenhuma.
Circulam pelo país as piadas fáceis, as anedotas descoloridas e sem jeito – orientadas para um nível cultural primário ou de viela - que deixam as bocas inertes, incapazes de se descerrarem num sorriso, numa completa indiferença. Talvez seja caso para supor que tanto esforço humorístico cansa, tanta cócega pré-fabricada já irrita. Sabe-se, aliás, que barrigas pouco cheias dificilmente sentem a cócega e que só com prodígios de arte consegue encher-se uma barriga de riso.
Irá isso demonstrar uma ingratidão? O povo tem falta de empregos estáveis e devidamente remunerados, falta de melhor qualidade de vida, de segurança. Aspira a melhores sistemas de saúde, de justiça, de ensino, etc., etc. Está aí a estagnação, a crise? Tenham paciência e esperem um pouco, está bem?! Entretanto, tomem lá este brinde, façam o favor de se distrair!

A indústria do humor serve ao povo o que o racionamento comeu.
Todavia, a experiência empírica parece anunciar que os períodos de quebra económica não são amigos do humor, antes, na inversa, os de alguma prosperidade. De barriga satisfeita e em paz, a piada graciosa tem graça e solta o riso prazenteiro. A cócega ajuda à digestão. Tanto humor, hoje, no país deprimido, talvez sirva apenas para demonstrar o que diz certo autor: que subjaz um fundo pessimista em cada humorista. O autor descreve-os como pessoas notavelmente desiludidas com o mundo e consigo próprias, que produzem anedotas porque na realidade se queixam de tudo.
Assim, os humoristas seriam uma espécie de palhaços que choram quando querem fazer rir. E temos a imagem clássica: junto da boca aberta em teatral gargalhada vemos a máscara da dor.

5 comentários:

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

Mais uma bela crónica para reflexão.
"...tanta cócega pré-fabricada já irrita" é verdade amigo querem que haja riso e boa disposição quando a "coisa" está cada vez mais triste e séria para uma grande maioria que de barriga vazia se esforça a toda a hora para a aconchegar, sem êxito e ainda por cima lhe fazem cócegas, dêem-lhes um naco de pão ou um emprego e verão os seus olhos, lábios e todo o corpo sorrirem.
Inverteram a pirâmide das necessidades humanas de Maslow talvez pensando que assim algum dia funcione, penso que nunca irá funcionar.

Um abraço
Carlos Rebola

vidaprovada disse...

Tem graça como também eu tinha já reparado na proliferação de programas dessa espécie que descreves nos meios de comunicação social, caro amigo. Pergunto-me várias vezes se não são formas de distracção baratas que as (inteligentíssimas!) personalidades da comunicação usam, não propriamente para ajudar a acalmar e esbater a dor do povo face a miséria que cada vez mais lhes aperta o cerco da existência, mas, pelo contrário, investem numa campanha massiva de desvio da atenção das massas em prol de um trabalho de lavagem cerebral que permita a absorção mais eficaz de medidas cada vez mais opressoras.

Um abraço,

Isabel Domingues

Anónimo disse...

Caro Arsénio Mota,

bem-haja por trazer aqui assunto tão pertinente. De facto, tal proliferação de humor, nas actuais circunstâncias, só pode ser sintomático. No entanto, há que fazer distinções. Uma coisa é o humor anedótico e alarve de um Camilo ou d' Os Malucos do Riso, outra coisa é o humor mais inteligente dos Gato Fedorento ou d' Os Contemporâneos, outra ainda é o humor cáustico do Vai tudo Abaixo ou do Fogo Posto. O que não quer dizer que não haja um pouco de tudo em todos estes... Seja como for, em meu entender, muito graças às Produções Fictícias (entre muitos produtos de qualidade inferior), é verdade, o humor nacional atingiu um grau de excelência que não tinha desde o Solnado. Graças ao trabalho árduo de alguns. Alguns a quem devemos agradecer por soltarem, através da gargalhada, ainda que momentaneamente, os nossos corações oprimidos. Essa é de resto a nobre função do humor e não vejo que o mesmo, quando é bom, deva ser criticado da mesma forma que Pascal denunciava o «divertissement» alienante. O humor ocorre certamente sobre um fundo de desespero, como diz; mas é um modo sábio de lidar com ele. Por isso, desde Aristófanes (e certamente antes), o melhor humor surge associado a momentos de crise. A crise é o seu campo natural. Abençoado humor, quando é bom!

Abraço,

Paulo Carvalho

Carlos Braga disse...

A reflexão do Paulo Carvalho sobre mais um oportuno e conseguido texto de Arsénio Mota coloca o problema do humor, ou da falta dele, no seu devido lugar. Deixemos de lado a questão de saber se o humor nos é oferecido como algo de eminentemente salutar ou como mera evasão para as agruras do dia a dia.
Na verdade, somos brindados com muito diferentes tipos de humor: num extremo o humor que estimula a preguiça das meninges; no outro o humor boçal de alguns contadores de anedotas requentadas (a que o "poeta militante" José Gomes Ferreira chamava "tabaco mascado por muitas bocas"). Há que resistir à tentação de colocar todo o humor no mesmo saco da apreciação: comparar o humor fino dos Gato às piadas de caserna dum Fernando Rocha risível é o mesmo que comparar, em termos estéticos, a Vénus do Milo com um qualquer Zé das Caldas...
Se me é permitido meter a foice em seara (filosófica) alheia, diria que o humor anda associado ao riso. E aqui entra Henri Bergson, que nos explica o significado social do riso e nos oferece uma engenhosa teoria do cómico. Segundo ele, para fazer estalar o riso, o cómico exige algo de análogo a uma anestesia afectiva.
Pois, pois...

Arsénio Mota disse...

Amigos, o cronista declara-se gratificado pelos comentários anteriores. Valem pelo incentivo que trazem e valem mais. Paulo Carvalho e Carlos Braga contribuem para alargar os horizontes do meu texto com doutas observações. Bem-hajam! Na verdade, abordagens aos costumes como estas, de extensão limitada e metódica, não permitem certos excursos, atidas como têm que estar à sua própria economia expressiva.
Muito obrigado.