quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jogo: vício e perdição

Peço desculpa, vou apontar para mim mas isso não serve para me inculcar como exemplo. No berço em que me formei, o trabalho honrado era o verdadeiro e único título de nobreza (de sangue vermelho) reconhecido. O respeito pela palavra dada e o cumprimento de todos os compromissos é que davam à pessoa a sua dignidade. Neste ambiente, faziam-se ouvir as vozes mais enérgicas contra todas as formas do jogo. Era a figura acabada do vício e da perdição.
A moralidade que amaldiçoou o vício do jogo ou o hábito de jogar a dinheiro retirou-se, envergonhada e vencida, para os fundos e calou-se definitivamente. Nos tempos actuais, o moralismo corrente parece aceitar bem que um fulano enriqueça muito e depressa, se possível com pouco ou nenhum trabalho. Logo, o trabalho já não dignifica, tal como o cumprimento escrupuloso da palavra dada e das obrigações pessoais.
Quem se mantenha apegado aos comportamentos da antiga cidadania (a velha escola de civilidade) reveste-se de uma pátina inconfundível. É um «fóssil» de outros tempos, uma relíquia assombrosa da idade. Restam pessoas com honra própria, sem dúvida, mas este atributo, sem reconhecimento social que baste apesar da sua rareza, anda escondido nas arcas de cada peito.
Na verdade, o jogo deixou de ter as condenações que já teve. Ao invés, tornou-se quotidiano, normal, aceitável. Não se ouve uma voz a clamar que no jogo só pode haver vício e perdição, tão-pouco se estranha a abundância dos jogos em oferta.
Temos a lotaria, o totobola, a raspadinha, o euromilhões. Temos os casinos – o mais recente nasceu em Chaves –, os casinos on line na Net, os concursos da TV com prémios… Num país pobre e pequeno como o nosso, tanta fartura é surpreendente.
Consta que são os pobres que mais jogam. Em número, quero dizer, não decerto em quantias jogadas. Porém, sendo numerosos, elevam naturalmente as somas totais envolvidas: muitas migalhinhas fazem belos montes. E nem vale a pena comentar por que queimam os pobres na jogatina algo do pouco que possuem, pois todos sabemos que apenas um prémio gordo os salva do seu destino.
Todavia, poucos saberão avaliar o volume da riqueza que é assim drenada semana a semana dos bolsos de uma vasta camada de povo para se acumular em proveito exclusivo de uns poucos. Os jogadores enriquecem alguém desconhecido, que agradece à sorte, não à multidão dos que jogaram e perderam.
A popularidade crescente dos jogos a dinheiro associa-se de algum modo à popularidade do futebol (expandida aos videojogos). Mas o futebol de competição é espectáculo ruinoso, custa mais dinheiro do que por norma consegue render. Os jogos a dinheiro, no entanto, custam só a quem joga: lucram os premiados e, sobretudo, as respectivas organizações. Estas saem sempre a ganhar - e quanto será?!
Em suma, os jogadores enriquecem os premiados e também as entidades promotoras dos jogos. Eis o que deveria merecer, em tempo de crise, a devida consideração à competência política. Numa economia de casino, o jogo legal concorre para agravar as desigualdades sociais e retira mérito ao trabalho produtivo.

2 comentários:

Carlos Braga disse...

Excelente análise e desmistificação do logro que são os jogos a dinheiro. Quanto à honra, ou à palavra dada, bem sabemos como andam pelas ruas da amargura.
Noutros tempos a honra lavava-se com sangue, como nos mostra a Crónica de uma Morte Anunciada de Garcia Márquez.
Por causa dela, travavam-se duelos em Portugal há cem anos. Na antiga cultura grega era preferivel morrer a perder a honra e ficar eternamente esquecido. Por isso Aquiles quis combater, embora sabendo que a morte era inevitável.
Nos tempos que correm a honra foi mandada às urtigas. A palavra dada não vale um avo. O que está a dar é atropelar o amigo, o vizinho, para subir na vida a qualquer preço. O lema é enriquecer sem esforço. Por isso o jogo, sempre cada vez mais jogo.
Aqui deixo cinco réis de saudade, por esse tempo que já não há.
Um abraço.

Arsénio Mota disse...

Caro amigo:
Sei perfeitamente que não alinha em lavagens de honra com sangue. Nada disso. Defende, sim, tal como eu, a restauração do valor da palavra dada, quer dizer, a restauração plena da dignidade humana que em geral anda por aí tão enxovalhada, espezinhada. Não é só pela competição frenética em ambiente de crise socio-económica e moral em que nos puseram a viver. É, creio eu, pela desumanização do humano. Penso que as esferas dirigentes e influentes(políticas, administrativas, culturais, religiosas, etc.) têm um papel, e também uma enorme responsabilidade, pelo exemplo diário que dão, neste descambar vertiginoso para o lodo.
Obrigado pelo seu comentário, amigo Carlos!