domingo, 7 de setembro de 2008

A noite do fossado

Os agri(o)cultores das letras vivem de costas voltadas. Convivem pouco e reúnem-se ainda menos afora ocasiões excepcionais. Se têm alguns outros escritores na sua lista de amigos, é pelo acaso de circunstâncias felizes. Lembram um bocadinho aquelas raparigas casadoiras que se juntavam para ir ao baile imaginando-se cada uma delas a mais bonita de todas.
Parece que foi sempre assim, pelo menos por cá, não há que estranhar. Estranha foi a disposição que me levou naquela noite a ouvir o que a romancista tinha a dizer ao público. Moveu-me a curiosidade. A sala compôs-se: curiosos éramos nós todos.
A senhora publicara livros de poemas e depois romances - uma enfiada de romances a tombar logo para um pretenso cunho histórico. Li os primeiros, achei-os desinteressantes e maçadores, sem rasgos ou requintes de estilo, mas a senhora foi fazendo caminho, caminhando. Os anos correram e ali estava ela a explicar, a esclarecer, a recordar. Doutoramentos e uns quantos mestrados tinham focado os seus romances no Brasil, país que a senhora visitava e aonde os seus livros (por ofertas?) chegavam.
A sessão aqueceu ao anunciar a escritora que o seu último livro evocava uma peripécia histórica das relações Portugal-Brasil de tal maneira reveladora que certa amiga lhe telefonou do outro lado do Atlântico a chorar, emocionada. Outras revelações foram surgindo, mas uma salientou-se, pela repetição, de forma que se tornou numa espécie de esteio do discurso, um leitmotiv em evocação histórica: o fossado medieval referia-se ao costume português de abrir fossos no terreno para a defesa!
Eu julgava que o fossado (aludindo outrora também a tomadia) ficara na história como matriz arcaica do serviço militar obrigatório que imperou durante séculos até data recente do século XX. Consistiu outrora na obrigação de a população vilã ou também os peões irem em expedições de guerra ofensiva contra os sarracenos, de acordo com as condições dos seus forais ou costumes. Limpei-me de dúvidas consultando o Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão, onde o fossado remonta ao século IX, e o sempre útil Elucidário de Viterbo. Confirmei ainda em dicionários usuais. Tudo bem.
Na ocasião admiti que a autora de romances históricos fantasiava por graça. Mas não. Regressou diversas vezes à sua ideia para afirmar que os portugueses de antanho abriam fossos cada vez mais além, dentro do domínio vizinho, e assim expandiram o território nacional. Foi ao ponto de considerar isso como marca distintiva do carácter finório da nossa gente.
Ignoro onde terá ido a senhora beber tal ideia, mas eu já vacilava sem atinar se ela romanceava a nossa história, se os frutos molecos da sua imaginação. Reparei no modelo da sua explanação. A senhora aprendera bem a envernizar a imagem na esfera mediática, pela imagem pretendia vencer. Percebia-se bem o desiderato: importava pouco o que ali dizia, importante era atrair o público para os seus livros.
Ai, se ela soubesse que isso me serviu para «ler» os seus outros livros sem os abrir.

4 comentários:

Carlos Braga disse...

Recordo vagamente a palavra "fossado" associada à possibilidade que os senhores feudais tinham de alargar a sua influência, numa relação de poder estabelecida com súbditos e não com cidadãos. Curiosamente, a leitura deste texto fez-me recuar aos tempos em que nas nossas aldeias alguns agricultores, pela calada da noite, iam mudar os marcos que lhes delimitavam as propriedades. Assim dilatavam poder e influência, num tempo em que a riqueza se media pela posse da terra e não pela conta bancária.
Quanto à tal escritora que discorria sobre o "fossado", não posso afirmar se o fazia ou não com propriedade. Mas se é do género das que "enverniza a imagem" e embrulha o produto no celofane mediático para atrair leitores incautos e melhor vender, então merece bem que lhe leiam os livros sem os abrir. Pode o amigo Arsénio dizer-nos como é que isso se faz? Será a sua receita parecida com a de um livro recentemente publicitado que - passe a ironia - ensina a criticar livros sem precisarmos de os ler?...

Arsénio Mota disse...

O amigo Carlos Braga quer puxar-me pela língua... Todavia, este espaço não serve para diálogos extensos. Lembrarei apenas que continuam a publicar-se no país mais de MIL livros novos a CADA MÊS!! Alguém consegue acreditar que os autores portugueses (além dos tradutores, é claro) entraram numa inspiração colectiva delirante?! Mais: será que esta nossa época é favorável à criação de inovações artísticas de autêntica vanguarda? Ou estaremos num momento da história para esquecer, à espera do que ainda não veio, o tal Godot?
Amigo Carlos, não concorda que muitos dos livros em circulação podem e devem ser lidos sem os abrirmos?
Falo disto em «Letras Sob Protesto» e também em «Divertículos», livro este acessível neste blogue...
Abraço cordial.

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio

Vejo o nosso panorama editorial, como um grande concerto de "heavy metal" em que o "barulho" ensurdecedor de títulos tipo "tablóide" abafa a verdadeira música do melhor que se edita.
Que se vendam livros ao peso, para serem "lidos sem os abrir", adquirem-se pela pressão do marketing não pela sua qualidade.

Quanto ao fossado, se na idade média era uma forma obrigatória, para os nobres, de expansão do território. Hoje o "fosso" é no sentido de preservar e defender o território próprio, foi substituído pelas grades nas janelas, muros altos com "lanças" no cimo, condomínios fechados, cada vez mais nos prendemos, limitando a nossa liberdade, nas próprias casas (território) enquanto lá fora andam em liberdade os meliantes.

Nos dias de hoje o "fossado" em tudo e também no campo editorial significa aumentar o negócio financeiro.

Obrigado pela crónica
Um abraço cordial
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Carlos Rebola, amigo:

«Hoje o "fosso" é no sentido de preservar e defender o território próprio, foi substituído pelas grades nas janelas, muros altos com "lanças" no cimo, condomínios fechados, cada vez mais nos prendemos, limitando a nossa liberdade, nas próprias casas (território) enquanto lá fora andam em liberdade os meliantes.»

Visão lúcida e certeira a sua! Capta melhor o assunto do que eu, situando-o com toda a clareza nas contradições do nosso mundo, hoje. Fico de parabéns, muito obrigado!
Abraço apertado.