quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Oi, Vinicius! Saravá!

Entrei na aventura literária no início dos anos ’50, quando crescia no ambiente culto brasileiro e português um certo escândalo. Incrível: : um diplomata (e repetia-se como que sublinhando o termo, um diplomata!), actuava cantando noite adentro pelos bares cariocas. Assim nasceu o «poetinha».
Era ousadia valente, mesmo no país do samba e do carnaval, um escritor, um intelectual, aparecer em espectáculo público sem qualquer ademane protocolar. Além disso, aquela veneta de compor e cantar versos e sambas que o povo, cantando também, aplaudia!... Nos círculos cultos do Portugal de então, no seu bafio salazarento, o caso parecia espantoso, tão espantoso que chegava a ser degradante. Os jornais falavam, a notícia corria, que descrédito! Inacreditável!
Mas Vinicius de Morais, nascido em 1913, era para todos os efeitos filho de poeta e tocador de viola. Cantou no coro do colégio, onde montou pecinhas de teatro. Formou-se em ciências jurídicas e sociais em 1933, entrou na carreira diplomática em 1946, e publicou peça em 1954, quando já estava, desde meados de 1950, a participar intensamente no movimento musical brasileiro (MPB, com Carlos Lyra, Tom Jobim, Toquinho).
Assim se desenhou no tempo a figura e a presença do poeta que teve coragem para resistir, permanecendo quem era. Resultado? Foi talvez o derradeiro aedo, isto é, poeta-cantor, poeta-músico, poeta-poeta integral, se formos buscar à tradição clássica da cultura grega o respectivo precedente.
Vinicius não descurou a obra literária, aí temos as «Antologias» para no-lo lembrar e revisitar o seu inolvidável «operário em construção». Mas o seu caminho estava escolhido, era um aedo - ou, se se quiser, bardo, um pouco jogral – e o seu caminho foi feito caminhando… a cantar e a dizer-fazer poesia.
Artista de rara estirpe, o «poetinha» cantou o amor e a beleza da mulher. «As muito feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental.» Cantou a vida, que «é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Noctívago incorrigível («De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo»), teve fama de «vagabundo que nada fazia» fazendo tudo o que fazia: belíssimos sonetos, canções famosas, músicas para filmes. Encontrou no uísque «o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado». Detestou «tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata».
Em 1968, ano em que esteve em Lisboa com Chico Buarque e Nara Leão, foi aposentado compulsivamente da carreira diplomática após 26 anos de serviço. Corporizou-se a sentença, consumou-se a condenação. Juntava-se ao escândalo puritano o correctivo balofo. E foi assim que Jacinto do Prado Coelho, director do «Dicionário de Literatura», ed. Figueirinhas, omitiu Vinicius da obra escondendo-o todavia algures pois não consta dos índices. Quem se lembra hoje de Jacinto e da sua picardia? É poeira e mais nada.
Vinicius de Morais, falecido em 1980, saravá! Continue vivo, «poetinha», e connosco! Saúdamo-lo nesta evocação, matando saudades em (link)

5 comentários:

Manel disse...

Un saravá para o amigo Arsénio, que me recordou o poeta do "amor é eterno enquanto dura".
Um abraço
Manel

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

A crónica do amigo Arsénio relembrou-me um poema de Vinicius que releio de vez em quando e hoje reli-o por mo relembrar, é o "Operário em construção" e termina assim:

"Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção"

Não é pelo "Garota de Ipanêma" que por vezes tentam omiti-lo e demiti-lo, penso que é, sim, pelo facto de o "operário em construção" ter o poder de incomodar...
Saravá

Um grande abraço
Carlos Rebola

Carlos Braga disse...

Obrigado por nos relembrar Vinicius, sobretudo quando às vezes andamos distraídos e arredados de tanta coisa boa para ler e ouvir.
Em Vinicius fascinou-me sempre a irreverência, a insubordinação dos estereótipos, o lado boémio, a imensa ternura, a poesia com dimensão humana. Quem, enamorado da natureza, é capaz de desenhar um "Soneto à Lua", ou, atento ao que se passa à sua volta, brindar-nos com o belo poema subversivo "Operário em construção" só pode enfileirar na galeria dos maiores poetas brasileiros do século XX. Foi bom voltar a pensar nele, e, sobretudo, voltar a ouvi-lo!
Um abraço.

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos Rebola:
O «operário em construção» é um poema longo, não ficaria bem transcrito no blogue, onde os textos costumam ter um tamanho máximo. Mas apeteceu-me...

Amigo Carlos Braga:
Um «belo poema subversivo», diz? Então eu diria, se me permite, que a maior poesia é, ou será, de algum modo, subversiva. Talvez até o «Soneto à Lua», que cita, o seja também. Subversivo! Como, neste caso?, perguntará. Direi: espiritualiza a natureza, desvia do Céu para a Terra o que deveria pertencer à ordem celeste... Concretamente, acho que não apenas na esfera do social existirá subversão. No domínio da arte e da cultura, também. Antecipo: creio que concordará com isto...
Abraços para vós, caro amigos!

Anónimo disse...

Passa o tempo e gostamos cada vez mais.
Em Janeiro de 2003 passei uma tarde em Itapuã e em Janeiro de 2008 passei um serão no "show" que Maria Creuza (uma das namoradas do poeta) mantem há vários anos no Rio de Janeiro e trouxe o seu último CD "É melhor ser alegre que ser triste".
(Manel: "...mas que seja infinito enquanto dure").
Abraço,
Rui