quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Olhar sem ver?

Somando impressões e sinais, convenço-me de que olhamos muito e vemos pouco. Por isso temos como certo que o melhor modo de esconder o objecto que desejamos guardar é deixá-lo bem à vista. Digamos então um exemplo: entramos num café, numa cervejaria ou num restaurante e, observando de relance o ambiente criado pelas respectivas decorações, poderemos sentir a «cultura» que ali se respira avaliando a concepção e o gosto que o decorador e o patrão do negócio exibem, detectando mesmo alguma da ideologia que os impregna.
De facto, habituei-me a pensar que é preciosa a quantidade de sinais, logo de informação, que podemos recolher da realidade objectiva. Falei disso há anos num trecho de certa narrativa. Mas hoje pergunto: quem concorda comigo se disser que outro tanto poderemos obter, por exemplo, da imagem com que se apresenta um autor literário numa sessão com os seus leitores?
O tema foi-me sugerido há dias por um estimado amigo que me questionou querendo apurar do que me servia para «ler», de certo autor, os seus (e outros) livros quase sem os abrir. Pois basta ter olhos e, além disso, ver…
Veremos o conteúdo determinar o estilo da mensagem. Entrevistado ou a palestrar, um autor mostra como e para quem escreve. Se tem livros no supermercado ou ambiciona vir a ter, o autor apresenta a imagem própria envernizada ao gosto de quem pretende vendê-los no supermercado. Note-se o que diz e como o diz. O seu nome aspira a ser popular, com valor de «marca». Propõe à admiração geral os seus livros, referidos entre apreciações encomiásticas de outros nomes sonantes. Representa-se a si próprio. Interessa-lhe seduzir para vender.
Esse autor aparece em público negligenciando algo de novo que poderia anunciar e considera «natural» o seu esforço de autopromoção. Quer igualar-se aos autores mediáticos, seus mestres, que lhe dão boas lições: vê-os como relações públicas ou mesmo vendedores ambulantes das suas obras. Para ele, realmente, os leitores compram um livro desde que esse livro seja badalado quanto baste. Logo, para esse autor, não se requer talento, génio, arte para vencer - apenas marketing, força de venda.
Autores literários deste tipo, assim tão esfusiantes e gárrulos, parecem ser muitos e, todavia, não são numerosos, apenas se acotovelam no proscénio. Distinguem-se da grande maioria dos «outros», que duvidam da boa qualidade que possa trazer a quantidade até porque o mercado dos best-sellers funciona para gerar lucros e não para atribuir qualificações literárias.
Estes «outros» apostam na diferença. Se aparecem em público, é para estabelecer comunicação de teor cultural com dimensão humana.
Só a um «outro» poderia acontecer esta peripécia: um dia encontrou na rua um conhecido, parou, e a seguir apareceu outro. O recém-chegado, após as apresentações, traçou um perfil do autor, enaltecendo-o generosamente, conversa que fez virar o primeiro conhecido, velho amigo, para o autor, numa reclamação algo escandalosa: «Então eras assim importante e não dizias nada?!» Há realmente quem diga pouco da sua importância. Acredita que os leitores têm deveres a cumprir para consigo mesmos…

3 comentários:

Arsénio Mota disse...

Hoje à tarde, os blogues da Google estiveram por um fio. Perdas de tempo, ralação, nervos -- e o resultado vê-se: depois de fazer este «post», apercebi-me de que um leitor, com uma ponta de malícia, poderá considerar que afirmo a minha boa visão acima de todas as mais. Peço desculpa, mas nada disso está no contexto ou nas minhas ideias.
Fique o esclarecimento.

Anónimo disse...

Na verdade, olhar e ver são coisas distintas. Há quem olhe a casa e não veja o lar. O consumo de massas entra numa galeria de arte, "olha" para um quadro ou escultura e salta logo para outros, em busca de renovadas sensações epidérmicas. "Ver", para lá das oscilações do gosto, implica atenção, um outro olhar, ler por dentro, exercitar os sentidos. E requer tempo, pausa, alguma demora na contemplação dos objectos estéticos. A velocidade e a falta de tempo são inimigas da percepção do belo.

O que é válido para a pintura ou a escultura é-o também para a literatura. Obra de autor que só se preocupa com o marketing para vender, com a sedução que não interpela, orientada para quem só assimila o que não requer esforço (estratégia oportunista do tipo facilitar para vender melhor) é obra que não obriga a escavar a epiderme dos textos. Poderá roçar a mediocridade, mas não deixa de ser "útil": sempre ajuda a compor uns metros de estante...

Carlos Braga

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos Braga:
Pois sim, olhar não é ver, tal como a «literatura de consumo» não é a «literatura» lato senso. A lente da câmara fotográfica não vê, não tem por trás o que os olhos têm, o miolo...
O que pretendo significar no meu escrito é algo que o povo resume no dito «pelo andar da carruagem se vê quem vai lá dentro». Ou: mostra-me como falas e te apresentas e eu (com alguma outra ajudinha) perceberei como e para quem escreves!
Abraço.

Nota - Continuam a verificar-se anomalias de funcionamento dos blogues. O sistema está esquisito, instável. Nem consigo retirar de vez e sempre o meu ícone dos comentários, agora que descobri o ponto!