segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ortografia em mudança

Paradoxo irremediável: questões de linguística estão entre as mais enfadonhas, boceja sobre elas a maioria das pessoas ao primeiro minuto e depois deserta. Resiste à matéria apenas algum especialista caturra ou outra raridade, com ardor bastante nos fôlegos para escabichar em questões especiosas de lana caprina. Linguística, filologia, gramática, ortografia… arreda daí, não há estômago para tal empadão.
Porém, eis o paradoxo, basta que se anuncie uma qualquer mudança, mínima que seja, proposta para o corpo da língua, e logo surgem e se multiplicam os clamores. A opinião pública incendeia-se, flamejam os discursos, alastra o direito à indignação. A maioria cerra fileiras para se opor às mudanças propostas pelos especialistas caturras – porque a língua é nossa, isto é, de toda a gente, e alguém quer expropriá-la na nossa boca!
Assim acontece desde as reformas ortográficas introduzidas no período da primeira República. Discussões e debates sem fim vem demonstrando que na verdade as questões linguísticas despertam intensas paixões, como se viu recentemente a propósito do novo acordo que pretende unificar a ortografia do Português. A polémica serenou, entrámos no «tempo de preparação», mas logo que este intervalo termine e que a lei aplique no terreno a nova ortografia, teremos de novo a lavrar, sem surpresa, as labaredas…
Cá por mim, tentarei sobreviver a mais esta reforma ortográfica. Será a terceira no decurso da minha vida (não é pouca coisa, não senhor!), pois a primeira foi a que nos emendou a mão ao escrevermos pae, mãi, êste, a pesar de, etc., e a segunda retirou os acentos aos advérbios de modo, implacàvelmente, etc. As adaptações foram então sempre fáceis, agora o avanço da idade deixa alguma dúvida.
Aliás, o novo acordo é um tanto mais extenso. Introduz mais alterações do que as reformas anteriores. Dada a dimensão global do Português - que é uma notável língua de cultura -, afirmar que altera apenas 2% pode induzir-nos em erro. Vai precisar de atenção e disciplina quem quiser escrever escorreito o novo Português… e agora com alfabeto de 26 letras.
Todavia, espero que nenhum polícia da língua me prenda por desacatar qualquer regra. Continuarei a escrever como sei, pelo menos até que as alterações se banalizem pela generalização nos espaços públicos. No entanto, terei (teremos todos) que fazer um esforçozinho.
Comecemos desde já, isto é, não deixemos o assunto esquecido para chegarmos a ele tarde demais. Uma adaptação lenta é preferível a confusões de última hora. Fixemos algumas regras: os nomes dos meses e da estações do ano vão ter iniciais minúsculas Haverá grafias duplas: aspecto coexiste com aspeto, cacto com cato, caracteres com carateres, facto com fato, corrupto com corruto; recepção com receção; peremptório coexiste com perentório, sumptuoso com suntuoso.
Portanto, desaparecem as consoantes mudas. Mas irão mesmo desaparecer?

8 comentários:

Anónimo disse...

Sobre o acordo ortográfico há opiniões bem fundamentadas e credíveis, a favor ou contra. Por mim, estou aberto à mudança. Desconfio do bacteriologicamente puro (puristas da língua, ou da raça), a quem anteponho o colorido e a riqueza da diversidade. Certo: não gosto de algumas alterações que aí vêm, mas não tendo a ver nelas um atentado ao nosso património linguístico. As diferentes ortodoxias à volta do tema incorrem em evidentes paradoxos: ora vociferam contra os "brasileirismos" enquanto abusam dos anglicismos (o stand by, o back office, o outsourcing, o part-time), ora se mostram adeptas da uniformização ortográfica e ao mesmo tempo ferozes opositoras de tudo aquilo que anula valores ou singularidades que nos pertencem. Não será uniformizar um modo de globalizar?
Ao contrário dos defensores do imobilismo ortográfico, não vejo problema em se retirarem as consoantes não pronunciadas (como o p de óptimo). Daqui a uns anos a estranheza será igual à que sentimos hoje quando escrevemos farmácia sem ph, isto é, nenhuma. Como vamos distinguir fato (acontecimento) de fato (peça de vestuário? Resposta: da mesma forma que hoje distinguimos canto (da sala) de canto (das aves).
Resta acrescentar que os afloramentos de preconceito neste debate não são só nossos. Os brasileiros que nos acusam de xenofobia pela teima de não querermos mudar, esquecem o que os media do Brasil fizeram a João Ubaldo Ribeiro após vencer o prémio Camões: ignoraram-no por completo. E porquê? Por não se tratar de um prémio prestigiado? Nada disso. Apenas porque se trata de um prémio ... de Língua Portuguesa!...
Carlos Braga

Arsénio Mota disse...

Caro amigo Carlos Braga:
Concordo perfeitamente com o modo como aborda a questão. É, acho eu, correcto. O Acordo Ortográfico, tão controvertido, tem que ser visto como aquilo que acima de tudo, e em primeiro lugar, é -- um compromisso político. Quem vê na lusofonia a maior grandeza possível de Portugal na actualidade (afora futebolices) compreenderá bem o Acordo. De olhos lavados e sem sofismas. Lembrando talvez uns brasileiros que até perguntaram que raio de língua falávamos nós por cá, neste canto da Europa!
Abraço apertado.

P.S. - Por vezes um comentário não «entra», tanto quanto julgo saber, por: 1 - o sistema Google parou para manutenção (isto acontece periodicamente!); 2 - a nossa ligação ao ISP falhou por momentos. Daí a conveniência de pré-visualizar o comentário e mesmo gravá-lo na memória RAM. Evita perdas. Em recurso, enviem-mos por mail, eu farei o «post».

Carlos Rebola disse...

Amigo Arsénio Mota

De "fato" ou "facto" ou sem uma coisa ou outra até mesmo sem gravata, não vou com facilidade entrar nas mudanças que o acordo ortográfico vai impor. Que me desculpem se cometi algum erro ortográfico. Pois é uma questão que "ato" ou "acto" não tem importância para o atacador da bota, nesta, na bota, ninguém mexe.

Se era costume dizer-se que "a língua portuguesa é muito traiçoeira" será que o vai ser menos com a aplicação do acordo ortográfico?

O acordo de acordo com o vídeo altera menos de 2% do português do Brasil porque a alteração do português de Portugal que vai deixar de ser, é muito maior daí dizer-se que o ex colonizador vai ser colonizado. Cada vez nos vamos afastar mais da "língua mãe" e a torre de babel vai crescer ainda mais. Estou a pensar na interpretação das leis, também.
Uma língua viva não é estática, por isso é viva, mas muda naturalmente sem qualquer imposição externa.
"Nesta reforma só o português lusitano, trocou a porta" diz o vídeo. Afinal quem é que muda e para onde? Vão ser dez anos (período sem erros ortográficos) de autentico regabofe em todas as áreas onde a linguística principalmente na área da semântica é essencial á transmissão de mensagens que para que a comunicação seja efectiva o código tem que ser comum, vai ser como vamos, ter de dizer uma “bagunça”.
Tenho “cágado” ou “cagado” no jardim vai ser mesmo ortograficamente depois de retirado o assento como previsto à palavra, cágado, mas e o que se quer dizer é clarinho como água?

Um abraço
Carlos Rebola

Arsénio Mota disse...

Amigo Carlos Rebola:
É fácil perceber no que diz uma boa dose de razão. O Acordo Ortográfico, afinal, como digo, resulta de um acordo político. Eu vejo a sua conveniência para além das inconveniências -- estarei enganado? Por outro lado, ninguém vai obrigar-nos a escrever correcto pela nova ortografia. Ninguém é «dono» da língua que fala e ninguém é preso por escrever ainda hoje, p. ex., pharmacia ou mãi. Acresce o seguinte: haverá ainda palavras com grafia dupla e pelavras (como «facto», em que pronunciamos «ct»), que se escreverão assim mesmo. Enfim, caro amigo, acho que lucraremos todos em não dramatizar a questão... Até ver.
Abraço cordial.

António Pereira disse...

Caro Arsénio Mota:
Provavelmente, este comentário, cinco anos depois do seu “post”, fica deslocado. No entanto, como os intervenientes nos comentários parecem estar de acordo com o extrato em que diz que “Haverá grafias duplas: aspecto coexiste com aspeto, cacto com cato, caracteres com carateres, facto com fato, corrupto com corruto; recepção com receção; peremptório coexiste com perentório, sumptuoso com suntuoso.”, cá vai a minha contribuição.
Das duplas grafias que refere apenas uma se aplica ao português europeu: caracteres/carateres. Em todos os outros casos, há uma única grafia para Portugal. Assim: aspeto (Portugal) e aspeto/aspecto (Brasil); facto (Portugal) e fato/facto (Brasil); corrupto (Portugal) e corruto/corrupto (Brasil); receção (Portugal) e recepção (Brasil); peremptório (Portugal) e peremptório (Brasil); sumptuoso (Portugal) e suntoso/sumptuoso (Brasil). Estas duplas grafias já existiam no português do Brasil, tendo sido introduzido pelo Formulário Ortográfico de 1943.
Se achar que o comentário está “fora de jogo”, pode não o publicar.
Bom fim de semana.
António Pereira
P.s. De qualquer modo, considero que as duplas grafias introduzidas pelo AO (perto de 200) são um dos pontos fracos da reforma. Por um lado, complicam em vez de simplificar; por outro, induzem em erro quem lê o texto do Acordo sem ler a Nota Explicativa – Anexo 2.

Arsenio Mota disse...

Caro António Pereira:
Obrigado. O seu comentário é bem-vindo. Demorou um pouco a aparecer no blogue apenas porque o sistema, neste caso de um comentário a "post" antigo, retarda a sua publicação submetendo-o à moderação do administrador. Creio que conhece bem esta praxe pois também é bloguista.
O aspecto do AO que na actualidade mais me importa reside exactamente neste ponto: a ortografia oficial portuguesa não era mesmo a nossa, aceitámo-la por consenso e Portugal está a aplicá-la. Sozinho!
Saudações cordiais.

António Pereira disse...

Boa tarde, Arsénio.
O "sozinho" ("sòzinho", era eu aluno no Liceu Nacional de Setúbal)daria pano pra mangas, mas vou deixar o contraditório no teclado, pois, pelas suas palavras, parece-me que não é uma discussão que lhe interesse particularmente. E está no seu direito.
Continuarei a viajar pelo seu blogue. Descobri-o há poucos dias e, independentemente de estar ou não de acordo com o que diz, gosto do estilo/qualidade da sua escrita.
Abraço e Bom Ano!
António Pereira

Arsenio Mota disse...

Caro António Pereira:
Agradecimentos por tanta simpatia! Tentarei merecê-la.
É verdade, confesso que as questões ortográficas me aquecem pouco. Ceguinho que sou, considero que talvez resulte, em última análise, em pouco mais do que uma convenção. Isto reagindo contra umas intermináveis discussões de especialistas caturras - e mais não digo...
Cumprimentos e até quando quiser.

P. S. - Retribuo e agradeço votos de Boas Festas e feliz Ano Novo. Que assim seja!